Paisagem surrealista:
Os contornos que o crepúsculo
Desenha no lixo
Que o mar semeou na praia.
Surrealista...
Só no finzinho da tarde.
À luz crua do dia...
Cenário de filme italiano,
Neo-realismo anos quarenta.
Porém...
Há uma centelha poética
Nos resquícios da indigestão
Que o mar devolveu à praia:
Na bonomia de uma boneca sem braços;
Sapatos solitários que perderam seus pares;
Um vaso de noite sem asa;
Copos e garrafas...sinais de angústias mal digeridas;
Troncos de madeira disformes e conformes...
-Símbolos do que somos e como somos-
Todavia...
(pensar que foi nesta praia
que a dama por quem me aflijo
se revelou em dotes de sereia,
filha de uma deusa maior...
e de um generoso fato de banho,
insinuando o que só viria a conferir
na plenitude dos votos nupciais).
Raul Leite, 27 de Dezembro de 2013
Assuntos indiferenciados. Tentativa de me obrigar a escrever um poema todos os dias úteis (nos dias inúteis, transformo-me num zombie...como os demais)
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
A rotunda das maminhas
" Tudo o que fizeres se não provocar, pelo menos, um sorriso...É porque não é coisa boa". Assim mesmo dizia alguém, não me lembro quem. (a minha mãe?)
Tudo estaria bem se nós, os portugueses, não nos levássemos tanto a sério. Rir de nós próprios é a maior manifestação de inteligência, mas este jeitinho fatalista sempre acompanhado à guitarra, não ajuda nada.
Não faltam exemplos de grandes obras, de grandes autores, onde o humor impera através de uma fina ironia e de um sarcasmo servido em cálices de fino gosto. Pena que não seja o nosso caso: segundo um estudo "altamente científico" os portugueses riem-se muito com anedotas de papagaios, maridos enganados, padres e doidos (não de alentejanos, porque essas têm o chamado efeito "boomerang"). Enfim, nem sempre o riso merece o maravilhoso som que produz. Muitas vezes é gratuíto e outras tantas é provocado por cócegas que, como se sabe, é um acto de violência e, até, instrumento de tortura.
Cá por mim, confesso que parto o coco a rir quando passo (e passo por lá amiúde) na Rotunda da Praça da Índia em Miramar e sou confrontado com com o "atrevimento" do desenho arquitectónico do jardim da respectiva rotunda: já lhe chamam a "rotunda das maminhas" o que não deixa de ser estranho já que, segundo pessoa supostamente responsável, a intenção era que aqueles montículos de vários tamanhos, significassem as ondas do mar que, entretanto, ali bem perto, ora impávidas ora pouco serenas,continuam a cumprir o seu destino: a enrolar na areia.
Vitória da arte, que se quer atrevida e provocatória e por isso, só nos resta aceitar, com serena elegância britânica, e alardear em nossas carrancas um sorriso de cidadãos entendidos em arte moderna.
Entretanto, ali bem perto, na Alameda do Sr. da Pedra, alguém,com impulsos faraónicos, edificou um verdadeiro tratado ao esbanjamento, com jardins, lagos, fontes, e um pórtico de cariz novo-rico, sendo que, tudo junto, não provoca sequer um sorriso amarelo. (provoca, isso sim, uma "dor de alma" pelo "arrojo" de ter cortado pela raiz a romaria mais popular do Norte do País).
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro" Outubro 2002
Tudo estaria bem se nós, os portugueses, não nos levássemos tanto a sério. Rir de nós próprios é a maior manifestação de inteligência, mas este jeitinho fatalista sempre acompanhado à guitarra, não ajuda nada.
Não faltam exemplos de grandes obras, de grandes autores, onde o humor impera através de uma fina ironia e de um sarcasmo servido em cálices de fino gosto. Pena que não seja o nosso caso: segundo um estudo "altamente científico" os portugueses riem-se muito com anedotas de papagaios, maridos enganados, padres e doidos (não de alentejanos, porque essas têm o chamado efeito "boomerang"). Enfim, nem sempre o riso merece o maravilhoso som que produz. Muitas vezes é gratuíto e outras tantas é provocado por cócegas que, como se sabe, é um acto de violência e, até, instrumento de tortura.
Cá por mim, confesso que parto o coco a rir quando passo (e passo por lá amiúde) na Rotunda da Praça da Índia em Miramar e sou confrontado com com o "atrevimento" do desenho arquitectónico do jardim da respectiva rotunda: já lhe chamam a "rotunda das maminhas" o que não deixa de ser estranho já que, segundo pessoa supostamente responsável, a intenção era que aqueles montículos de vários tamanhos, significassem as ondas do mar que, entretanto, ali bem perto, ora impávidas ora pouco serenas,continuam a cumprir o seu destino: a enrolar na areia.
Vitória da arte, que se quer atrevida e provocatória e por isso, só nos resta aceitar, com serena elegância britânica, e alardear em nossas carrancas um sorriso de cidadãos entendidos em arte moderna.
Entretanto, ali bem perto, na Alameda do Sr. da Pedra, alguém,com impulsos faraónicos, edificou um verdadeiro tratado ao esbanjamento, com jardins, lagos, fontes, e um pórtico de cariz novo-rico, sendo que, tudo junto, não provoca sequer um sorriso amarelo. (provoca, isso sim, uma "dor de alma" pelo "arrojo" de ter cortado pela raiz a romaria mais popular do Norte do País).
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro" Outubro 2002
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
A filha mais nova
Quem escreve expõe-se. Poder-se-à dizer até que quem escreve, despe-se um pouco. Por mais que um autor se deixe envolver na ficção pura e dura, acaba sempre por exorcizar as suas próprias angústias. A escrita funciona como a extensão do divã onde o subconsciente se deita e debita as suas fantasias.
Cada trabalho escrito é uma parcela da personalidade daquele que escreve e que passou a ser pertença do público. Público, esse, quase sempre implacável no seu julgamento.
Uma das coisas que liga a escrita àqueles que escrevem é a sua profissão. Médicos e jornalistas estão ligados a grandes obras literárias. Fazendo-nos crer que, o contacto com o sofrimento alheio, refina a sensibilidade.
Cá por mim, que sempre tratei da saúde dos telefones (e afins) avariados, nunca me confrontei com problemas (questões, como agora de diz) tão transcendentes. Mesmo assim, o meu relacionamento com os utentes desse serviço, fez-me rico de experiências inesquecíveis. No contacto diário com pequenos dramas, também eu cresci e me fiz.
Claro que também me aconteceram episódios rocambolescos e até burlescos como, daquela vez em que, ao atravessar o jardim de uma moradia à beira-mar plantada, um cão, com cara de quem não faz mal a uma mosca, deixou-me virar as costas e saltou-me às ditas cujas, com um ímpeto selvagem tão refinado que me deixou o blusão e a camisa num mísero estado. Além do susto, foi a prova provada de que "quem vê caras...". Sempre tive muito cuidado com cães-de-guarda de porte imponente, dado que, esses excessos de zelo, já têm resultado em tragédias lamentáveis. Mas, no meu caso, nunca pensei que um simples vira-latas me faltasse tanto ao respeito.
Mas, como ia dizendo, dos pequenos dramas suficientes para me deixarem com um nó na garganta e um brilhozinho nos olhos, recordarei apenas o caso daquele velhinho que, de vóz trémula, apontando o telefone, me dizia: "O senhor, por favor, verifique bem o meu telefone, de certeza que as campaínhas estão avariadas porque ele não toca. A minha filha mais nova está na Suíça a trabalhar. Ontem, eu fiz anos. Ela não ia deixar de me telefonar no dia dos meus anos. Não, ela não se ia esquecer..."
De imediato, desejei que as campaínhas do telefone estivessem mudas e quedas, desengonçadas e até partidas. Esperança vã: logo no primeiro teste, as campaínhas tocaram na mais completa e indiferente normalidade...enquanto dentro de mim crescia uma raiva surda por tudo o que é suiço: os relógios de cuco, os chocolates, a neutralidade...e, sobretudo, um grito estrangulado na garganta que refilava contra as filhas mais novas que se esquecem do aniversário dos pais.
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Janeiro de 2003
Cada trabalho escrito é uma parcela da personalidade daquele que escreve e que passou a ser pertença do público. Público, esse, quase sempre implacável no seu julgamento.
Uma das coisas que liga a escrita àqueles que escrevem é a sua profissão. Médicos e jornalistas estão ligados a grandes obras literárias. Fazendo-nos crer que, o contacto com o sofrimento alheio, refina a sensibilidade.
Cá por mim, que sempre tratei da saúde dos telefones (e afins) avariados, nunca me confrontei com problemas (questões, como agora de diz) tão transcendentes. Mesmo assim, o meu relacionamento com os utentes desse serviço, fez-me rico de experiências inesquecíveis. No contacto diário com pequenos dramas, também eu cresci e me fiz.
Claro que também me aconteceram episódios rocambolescos e até burlescos como, daquela vez em que, ao atravessar o jardim de uma moradia à beira-mar plantada, um cão, com cara de quem não faz mal a uma mosca, deixou-me virar as costas e saltou-me às ditas cujas, com um ímpeto selvagem tão refinado que me deixou o blusão e a camisa num mísero estado. Além do susto, foi a prova provada de que "quem vê caras...". Sempre tive muito cuidado com cães-de-guarda de porte imponente, dado que, esses excessos de zelo, já têm resultado em tragédias lamentáveis. Mas, no meu caso, nunca pensei que um simples vira-latas me faltasse tanto ao respeito.
Mas, como ia dizendo, dos pequenos dramas suficientes para me deixarem com um nó na garganta e um brilhozinho nos olhos, recordarei apenas o caso daquele velhinho que, de vóz trémula, apontando o telefone, me dizia: "O senhor, por favor, verifique bem o meu telefone, de certeza que as campaínhas estão avariadas porque ele não toca. A minha filha mais nova está na Suíça a trabalhar. Ontem, eu fiz anos. Ela não ia deixar de me telefonar no dia dos meus anos. Não, ela não se ia esquecer..."
De imediato, desejei que as campaínhas do telefone estivessem mudas e quedas, desengonçadas e até partidas. Esperança vã: logo no primeiro teste, as campaínhas tocaram na mais completa e indiferente normalidade...enquanto dentro de mim crescia uma raiva surda por tudo o que é suiço: os relógios de cuco, os chocolates, a neutralidade...e, sobretudo, um grito estrangulado na garganta que refilava contra as filhas mais novas que se esquecem do aniversário dos pais.
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Janeiro de 2003
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Feios, porcos e maus
"Ir sempre mais longe deixa-nos, irremediavelmente, à mesma distância do horizonte". Escrevi esta frase, há anos,em jeito de sentença e de fórmula matemática, espécie de teorema porque demonstrável.
Tal me ocorre porque, neste assunto candente da pedofilia, os meios de informação já foram longe de mais e o horizonte continua à mesma distância.
Tenho para mim que, nestes casos, importa que tudo esteja no seu devido lugar. Ou seja: que o cidadão esteja sempre em estado de alerta, que a Justiça actue, que o Estado funcione e que a sociedade rejubile porque os seus valores mais elevados são preservados.
A exploração do sensacionalismo, os julgamentos na praça pública em nome de maiores audiências, são também um tipo de pornografia que nos merece repugnância.
Ou então, será a partir daí que todos nos transformaremos em "Feios, Porcos e Maus" fazendo jus à canga que muitos nos atribuem quando nos querem fazer passar por "cidadãos de segunda" desta Europa com laivos de nova-rica.
A propósito, o filme "Feios, Porcos e Maus", de Ettore Scola, é uma pequena obra-prima do cinema europeu. Dito assim, estou apenas a servir-me de um chavão que diz tudo e não diz nada. Mas, se vos disser que se trata de uma comédia social, em tom neo-realista, cuja acção se passa num bairro de lata, na periferia de Roma e onde o ambiente não cheira a "chanel five", (os filmes têm cheiros, sabiam?) mas onde, por vezes, deixa na sala um suave perfume a poesia que nos eleva e nos purifica.
É um filme de 1976 e, por isso, os detractores da corrente neo-realista no cinema e na literatura, podem baixar as defesas, já que se trata de uma obra de uma modernidade impressionante.
E é precisamente aí que a "porca torce o rabo..." Quando nos amarram ao epíteto "Feios, Porcos e Maus" deveria ser a esses valores de obra-prima do cinema que nos deveriam associar. E nunca a essa condenação de iletrados, maus profissionais, mentecaptos e afins.
Cá por mim, cidadão a caminho dos sessenta, e que julga ser o protótipo do português médio, quero dizer: aquele que sempre pagou os seus impostos com um sorriso nos lábios e uma lágrima ao canto do olho, continuo a apaixonar-me por este povo de bons poetas e maus gestores e cujo maior receio é, como ao Astérix, que o céu me caia em cima da cabeça.
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Dezembro de 2002
Tal me ocorre porque, neste assunto candente da pedofilia, os meios de informação já foram longe de mais e o horizonte continua à mesma distância.
Tenho para mim que, nestes casos, importa que tudo esteja no seu devido lugar. Ou seja: que o cidadão esteja sempre em estado de alerta, que a Justiça actue, que o Estado funcione e que a sociedade rejubile porque os seus valores mais elevados são preservados.
A exploração do sensacionalismo, os julgamentos na praça pública em nome de maiores audiências, são também um tipo de pornografia que nos merece repugnância.
Ou então, será a partir daí que todos nos transformaremos em "Feios, Porcos e Maus" fazendo jus à canga que muitos nos atribuem quando nos querem fazer passar por "cidadãos de segunda" desta Europa com laivos de nova-rica.
A propósito, o filme "Feios, Porcos e Maus", de Ettore Scola, é uma pequena obra-prima do cinema europeu. Dito assim, estou apenas a servir-me de um chavão que diz tudo e não diz nada. Mas, se vos disser que se trata de uma comédia social, em tom neo-realista, cuja acção se passa num bairro de lata, na periferia de Roma e onde o ambiente não cheira a "chanel five", (os filmes têm cheiros, sabiam?) mas onde, por vezes, deixa na sala um suave perfume a poesia que nos eleva e nos purifica.
É um filme de 1976 e, por isso, os detractores da corrente neo-realista no cinema e na literatura, podem baixar as defesas, já que se trata de uma obra de uma modernidade impressionante.
E é precisamente aí que a "porca torce o rabo..." Quando nos amarram ao epíteto "Feios, Porcos e Maus" deveria ser a esses valores de obra-prima do cinema que nos deveriam associar. E nunca a essa condenação de iletrados, maus profissionais, mentecaptos e afins.
Cá por mim, cidadão a caminho dos sessenta, e que julga ser o protótipo do português médio, quero dizer: aquele que sempre pagou os seus impostos com um sorriso nos lábios e uma lágrima ao canto do olho, continuo a apaixonar-me por este povo de bons poetas e maus gestores e cujo maior receio é, como ao Astérix, que o céu me caia em cima da cabeça.
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Dezembro de 2002
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Os meninos à volta da fogueira...
Não há cerimónia de casamento que consiga furtar-se ao capricho do fotógrafo em querer retratar os noivos, ao cair da tarde, junto à praia, em contra-luz, com o sol a desaparecer no horizonte.
É certo que me refiro aos casamentos (acontecimento que se fosse coisa boa não precisava de testemunhas) que ainda vão acontecendo nas freguesias do litoral de V N de Gaia.
A foto com o crepúsculo solar e os noivos em contra-luz é coisa bonita de se ver, sim senhor! Mas, o acto de tão banalizado, já faz parte da cultura "pimba" tão celebrada neste nosso jardim à beira-mar plantado.
É claro que estou a fazer juízo de valores...(eu próprio tenho uma dessas fotos...) E no entanto, na escala de produtos catalogados na dita cultura do piroso, esse nem é o mais pindérico. Porque o mais assustador, o mais aberrante, o mais inenarrável é o famigerado quadro do miúdo com as lágrimas em catarata pela cara abaixo.
Confesso que, diante de tal "obra d'arte", também me apetece chorar...de raiva! Sim, porque isto de admirar, fechado numa moldura, uma criança a chorar, deve inspirar elevadíssimos sentimentos, carradas de amor ao próximo...Caso contrário, o mínimo que se pode deduzir é que o sadismo cultiva-se de forma pouco subtil.
Entretanto, aquela parte de mim que se recusa a ver no comportamento humano todos os males do mundo, admite que o tão apreciado quadro (pendurado em casa de muito "boa gente") não seja um símbolo à crueldade.
Mesmo assim, recomendo a realização, ao nível nacional, de uma fogueira monumental alimentada com toda essa "tralha armada ao pingarelho". Com os meninos à volta, rindo e cantando num fim de tarde fantasmagórico, com as silhuetas recortadas a contra-luz, num ritual aliciante e...pagão.
Sim, porque isto da purificação através do fogo, pode parecer tipo Inquisição, mas, convenhamos, certos fins justificam os meios...
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro" Abril de 2002
É certo que me refiro aos casamentos (acontecimento que se fosse coisa boa não precisava de testemunhas) que ainda vão acontecendo nas freguesias do litoral de V N de Gaia.
A foto com o crepúsculo solar e os noivos em contra-luz é coisa bonita de se ver, sim senhor! Mas, o acto de tão banalizado, já faz parte da cultura "pimba" tão celebrada neste nosso jardim à beira-mar plantado.
É claro que estou a fazer juízo de valores...(eu próprio tenho uma dessas fotos...) E no entanto, na escala de produtos catalogados na dita cultura do piroso, esse nem é o mais pindérico. Porque o mais assustador, o mais aberrante, o mais inenarrável é o famigerado quadro do miúdo com as lágrimas em catarata pela cara abaixo.
Confesso que, diante de tal "obra d'arte", também me apetece chorar...de raiva! Sim, porque isto de admirar, fechado numa moldura, uma criança a chorar, deve inspirar elevadíssimos sentimentos, carradas de amor ao próximo...Caso contrário, o mínimo que se pode deduzir é que o sadismo cultiva-se de forma pouco subtil.
Entretanto, aquela parte de mim que se recusa a ver no comportamento humano todos os males do mundo, admite que o tão apreciado quadro (pendurado em casa de muito "boa gente") não seja um símbolo à crueldade.
Mesmo assim, recomendo a realização, ao nível nacional, de uma fogueira monumental alimentada com toda essa "tralha armada ao pingarelho". Com os meninos à volta, rindo e cantando num fim de tarde fantasmagórico, com as silhuetas recortadas a contra-luz, num ritual aliciante e...pagão.
Sim, porque isto da purificação através do fogo, pode parecer tipo Inquisição, mas, convenhamos, certos fins justificam os meios...
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro" Abril de 2002
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
A tarde de Sábado...
A tarde de Sábado apanhou os meteorologistas distraídos e brindou-nos com um solzinho maciinho que aqueceu a alminha da gente.
Bom, a tarde de Sábado também ficou mais bonita porque o meu clube ganhou. Claro, não há tarde, por mais carrancuda que seja, que resista quando o meu clube ganha: o sol explode em matizes multi-cores e até a chuva, quando se atreve, é apenas um dom maravilhoso da natureza, mesmo quando nos encharca até aos ossos.
Repito, Sábado o meu clube ganhou, a tarde enfeitou-se de sol e, quando é assim, tudo se ajusta: a minha cidade rejubila, apetece sorrir, beijar criancinhas e cumprimentar polícias.
Chegado aqui, convém esclarecer: nado e criado em Gaia, o Porto é a minha cidade de adopção. Quando falo da minha cidade é a ela que me refiro. Só me sinto citadino quando me embrenho no meu velho Porto.Quando tenho necessidade de me envolver com os que me cercam, quando pretendo acertar o passo pelo ritmo alucinante de uma verdadeira cidade, é no Porto que me atrevo, mesmo sabendo que já me pesa o pé.
O Homem é um animal gregário, pensa sozinho, mas age em grupo. Por vezes isola-se em paisagem solitária, e logo se diz que é o instinto do regresso às origens. Mas ninguém é feliz sozinho. Isto e disto se apercebeu o Humano desde os primórdios. E daí a criação de grandes comunidades funcionando como reserva e conservação da espécie. De forma esbatida e até inconsciente é isso uma cidade.
Claro que, para mim, cidade boa mesmo é onde estão os cinemas, os cafés, as montras, os livros, as igrejas, os jardins, os automóveis...e montes e montes de gente. E o tempo que é preciso, meu rico santo, o tempo que se gasta a saborear a cidade. Cá por mim, que sou aldeão por vocação e feitio, fico tempos esquecidos, de boca aberta, a observar o bulício mágico da minha cidade. E depois, meu riquinho santinho, em que outro sítio, em que outra galáxia, se podem ver tantas mulheres bonitas pisando as ruas como quem dança?
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Abril 2003
Bom, a tarde de Sábado também ficou mais bonita porque o meu clube ganhou. Claro, não há tarde, por mais carrancuda que seja, que resista quando o meu clube ganha: o sol explode em matizes multi-cores e até a chuva, quando se atreve, é apenas um dom maravilhoso da natureza, mesmo quando nos encharca até aos ossos.
Repito, Sábado o meu clube ganhou, a tarde enfeitou-se de sol e, quando é assim, tudo se ajusta: a minha cidade rejubila, apetece sorrir, beijar criancinhas e cumprimentar polícias.
Chegado aqui, convém esclarecer: nado e criado em Gaia, o Porto é a minha cidade de adopção. Quando falo da minha cidade é a ela que me refiro. Só me sinto citadino quando me embrenho no meu velho Porto.Quando tenho necessidade de me envolver com os que me cercam, quando pretendo acertar o passo pelo ritmo alucinante de uma verdadeira cidade, é no Porto que me atrevo, mesmo sabendo que já me pesa o pé.
O Homem é um animal gregário, pensa sozinho, mas age em grupo. Por vezes isola-se em paisagem solitária, e logo se diz que é o instinto do regresso às origens. Mas ninguém é feliz sozinho. Isto e disto se apercebeu o Humano desde os primórdios. E daí a criação de grandes comunidades funcionando como reserva e conservação da espécie. De forma esbatida e até inconsciente é isso uma cidade.
Claro que, para mim, cidade boa mesmo é onde estão os cinemas, os cafés, as montras, os livros, as igrejas, os jardins, os automóveis...e montes e montes de gente. E o tempo que é preciso, meu rico santo, o tempo que se gasta a saborear a cidade. Cá por mim, que sou aldeão por vocação e feitio, fico tempos esquecidos, de boca aberta, a observar o bulício mágico da minha cidade. E depois, meu riquinho santinho, em que outro sítio, em que outra galáxia, se podem ver tantas mulheres bonitas pisando as ruas como quem dança?
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Abril 2003
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
À sombra de um rumoroso ribeiro
Correndo o risco de ser repetitivo, volto ao tema da divisão etária da vida de uma pessoa:
Percebe-se que não aceito de ânimo leve que o espaço de vida que vai dos 25 aos 55 anos não seja credor da máxima atenção dos gestores da vida pública. Ao contrário do que se diz, é nesse espaço de tempo que tudo se define: a estabilização da vida sentimental, a profissão, os afectos políticos e desportivos, a depuração do carácter...Em suma, para o bem e para o mal, cumpre-se o Homem!
São trinta anos de vida. É o chamado tempo de jogo! Antes disso, somos crianças e jovens. Quer dizer: vamos aos treinos! Por volta dos 25 entramos em campo para o desafio de nossas vidas. Depois dos 55 anos, somos excelentes espectadores de um espectáculo que seguimos completamente extasiados. O ritmo abranda: passamos de um filme de "artes marciais" para o cinema de Manuel de Oliveira. E isso é bom! "É sorver em delicados haustos/preciosos néctares/com requintes de velhos mestres" (escrevi isto, não sei onde). É um acordar e agradecer a dádiva de mais um dia. É o tempo de "filosofar com pachorra e facúndia" (Eça). É o ripanço à sombra de um rumoroso ribeiro. Ora, se é tudo isto, porquê o estigma: 3ª idade?
Deixem-se de conversa fiada! Não se distraiam e prestem especial atenção aos jogadores. Os verdadeiros atletas são os da faixa etária 25/55 anos. Eles são os verdadeiros reis do espectáculo. Durante trinta anos vão dar tudo, não por qualquer estúpido amor à camisola, mas porque sabem que estão em completo estado de busca do sentido da vida. E por isso lutam. E por isso jogam. Mesmo sabendo que, no final, uns cantarão victória, outros ficarão o resto de suas vidas a lamber as feridas. É a vida!
Mas então, e a juventude? Não é na juventude que reside a aposta no futuro?
Meus amigos, chavões à parte, os jovens funcionam num comprimento de onda muito próximo de quem ainda não descobriu que a vida eterna é coisa que não existe. E isso não é mau: quando o ritmo abrandar...
É também por isso que defendo que o futuro da juventude será sempre o reflexo dos anónimos cidadãos da faixa 25/55 anos. É lá que estão as verdadeiras referências que hão-de inspirar o destino dos jovens. É lá que estão os pais, os professores, os artistas...e até os maus exemplos, claro!
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Julho de 2003
Percebe-se que não aceito de ânimo leve que o espaço de vida que vai dos 25 aos 55 anos não seja credor da máxima atenção dos gestores da vida pública. Ao contrário do que se diz, é nesse espaço de tempo que tudo se define: a estabilização da vida sentimental, a profissão, os afectos políticos e desportivos, a depuração do carácter...Em suma, para o bem e para o mal, cumpre-se o Homem!
São trinta anos de vida. É o chamado tempo de jogo! Antes disso, somos crianças e jovens. Quer dizer: vamos aos treinos! Por volta dos 25 entramos em campo para o desafio de nossas vidas. Depois dos 55 anos, somos excelentes espectadores de um espectáculo que seguimos completamente extasiados. O ritmo abranda: passamos de um filme de "artes marciais" para o cinema de Manuel de Oliveira. E isso é bom! "É sorver em delicados haustos/preciosos néctares/com requintes de velhos mestres" (escrevi isto, não sei onde). É um acordar e agradecer a dádiva de mais um dia. É o tempo de "filosofar com pachorra e facúndia" (Eça). É o ripanço à sombra de um rumoroso ribeiro. Ora, se é tudo isto, porquê o estigma: 3ª idade?
Deixem-se de conversa fiada! Não se distraiam e prestem especial atenção aos jogadores. Os verdadeiros atletas são os da faixa etária 25/55 anos. Eles são os verdadeiros reis do espectáculo. Durante trinta anos vão dar tudo, não por qualquer estúpido amor à camisola, mas porque sabem que estão em completo estado de busca do sentido da vida. E por isso lutam. E por isso jogam. Mesmo sabendo que, no final, uns cantarão victória, outros ficarão o resto de suas vidas a lamber as feridas. É a vida!
Mas então, e a juventude? Não é na juventude que reside a aposta no futuro?
Meus amigos, chavões à parte, os jovens funcionam num comprimento de onda muito próximo de quem ainda não descobriu que a vida eterna é coisa que não existe. E isso não é mau: quando o ritmo abrandar...
É também por isso que defendo que o futuro da juventude será sempre o reflexo dos anónimos cidadãos da faixa 25/55 anos. É lá que estão as verdadeiras referências que hão-de inspirar o destino dos jovens. É lá que estão os pais, os professores, os artistas...e até os maus exemplos, claro!
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Julho de 2003
Vias sinuosas
"Nós éramos tão pobres que o arco-íris quando passava na nossa rua...era a preto e branco".
A pobreza tem servido de mote a muitos exercícios literários, cinematográficos a artes afins. Ser pobre nem sempre é sinónimo de indigente ou falhado. Ligo muito o estatuto de pobre ao operário, trabalhador por conta de outrem. São estes que constituem a maior parte da população activa; é a maioria destes que vive no dealbar da pobreza. São estes que não fogem aos impostos. E são estes os tais -como dizia Almeida Garret- necessários para produzirem ricos.
Entretanto, "os fazedores de opinião" que proliferam na imprensa, e que ultimamente nos arrasam com a reprimenda: "É a Economia, seus burros!" Dir-nos-ão que é preciso defender a flexibilidade, a precariedade e tudo o mais que o novo Código de Trabalho consagra. Dir-nos-ão ainda que é preciso modernizar em nome dos mercados e que a competitividade só se consegue com leis de trabalho mais elásticas.
Julgo saber que a maioria dos profissionais da imprensa gostaria de menos precariedade, flexibilidade, etc. Julgo saber que muitos jornalistas e pessoal gráfico fizeram grandes carreiras, em grandes jornais, e hoje são cidadãos de grande valia e prestígio. Julgo ainda saber que, ao longo de dezenas de anos, os gráficos e jornalistas foram sempre a vanguarda dos direitos e garantias de quem trabalha.
O problema estará naqueles que ganharam o estatuto de "prima-donas" do jornalismo e que passaram a vociferar, alto e bom som, em desfavor dos direitos conseguidos pelos trabalhadores e nos dizem: -"Vocês tem respostas antigas para perguntas novas". É só isso que nos dizem; é só isso que escrevem com toda a pertinácia, como se fossem portadores de nova mensagem evangélica. Fazem-no, porque conquistaram a auréola de polémicos à custa de escreverem o contrário daquilo que pensam e fazerem o invés daquilo que sugerem. São o terror dos políticos, de artistas e de figuras ditas públicas. São os novos Senadores da Nação usufruindo de um cargo para o qual não foram eleitos.
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Fevereiro de 2003
A pobreza tem servido de mote a muitos exercícios literários, cinematográficos a artes afins. Ser pobre nem sempre é sinónimo de indigente ou falhado. Ligo muito o estatuto de pobre ao operário, trabalhador por conta de outrem. São estes que constituem a maior parte da população activa; é a maioria destes que vive no dealbar da pobreza. São estes que não fogem aos impostos. E são estes os tais -como dizia Almeida Garret- necessários para produzirem ricos.
Entretanto, "os fazedores de opinião" que proliferam na imprensa, e que ultimamente nos arrasam com a reprimenda: "É a Economia, seus burros!" Dir-nos-ão que é preciso defender a flexibilidade, a precariedade e tudo o mais que o novo Código de Trabalho consagra. Dir-nos-ão ainda que é preciso modernizar em nome dos mercados e que a competitividade só se consegue com leis de trabalho mais elásticas.
Julgo saber que a maioria dos profissionais da imprensa gostaria de menos precariedade, flexibilidade, etc. Julgo saber que muitos jornalistas e pessoal gráfico fizeram grandes carreiras, em grandes jornais, e hoje são cidadãos de grande valia e prestígio. Julgo ainda saber que, ao longo de dezenas de anos, os gráficos e jornalistas foram sempre a vanguarda dos direitos e garantias de quem trabalha.
O problema estará naqueles que ganharam o estatuto de "prima-donas" do jornalismo e que passaram a vociferar, alto e bom som, em desfavor dos direitos conseguidos pelos trabalhadores e nos dizem: -"Vocês tem respostas antigas para perguntas novas". É só isso que nos dizem; é só isso que escrevem com toda a pertinácia, como se fossem portadores de nova mensagem evangélica. Fazem-no, porque conquistaram a auréola de polémicos à custa de escreverem o contrário daquilo que pensam e fazerem o invés daquilo que sugerem. São o terror dos políticos, de artistas e de figuras ditas públicas. São os novos Senadores da Nação usufruindo de um cargo para o qual não foram eleitos.
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Fevereiro de 2003
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Eles e Elas...
...ainda por cima somos obrigados a reconhecer que a cadência diária do calendário, não se compadece com esta chaga ansiosa que nos consome em lume brando. E que o tempo, esse, esvai-se por entre os dedos enquanto nos enreda em tarefas pouco edificantes e nos reserva poucos minutos para sermos importantes...a nossos olhos, claro!
Valha-nos saber que até os grandes sábios, os grandes artistas, os homens de negócios e da política, perdem, eles também, imenso tempo em tarefas tão comezinhas como: apertar os cordões dos sapatos, arranjar o nó da gravata (eles), ir ao cabeleireiro e arranjar as unhas (elas), ver-se ao espelho e fazer caretas (eles), ver-se ao espelho e perguntar: "espelho meu há neste reino mais bela do que eu? (elas), dar pontapés nos pneus do carro (eles, elas nunca o fariam porque amam verdadeiramente o seu carro). olhar as montras e bocejar (eles), olhar as montras como quem olha para uma tela de Botticeli (elas), coçar o nariz (eles), retocar o baton (elas), esperar nas filas das repartições públicas, das cantinas e dos supermercados (eles e elas), nas salas de espera dos consultórios médicos e clínicas (eles e elas), cair num engarrafamento matinal (eles e elas), cair na tentação de casar (mais elas do que eles), olhar o horizonte de ar vago e indefinido (eles e elas), pensar (elas), agir e depois pensar (eles), comer e dormir (eles e elas), e, sobretudo, o tempo imenso que todos (eles e elas) são obrigados a perder no tal "lugar solitário onde toda a vaidade se apaga...".
Tudo isto é prosaico e vulgar. E perde-se assim 80% da nossa vida.
É claro que, livres desta maçada, estão os heróis. Ninguém espera ver um Super-homem, um Batman, uma Lara Croft (Tomb Raider) ou "cowbóys" de figura imaculada como Texas Kid, Buck Jones ou Tom Mix a perderem tempo com ninharias domésticas...e ainda bem! Aos heróis e aos deuses nada se questiona e tudo se desculpa.
Medo (pânico, mesmo) tenho eu dos "cowbóys" modernos que, montados numa parafernália de material bélico, são capazes de desencadear uma guerra para gáudio do seu próprio umbigo (e do "ouro negro") e onde os "índios" são considerados "o elo mais fraco".
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Fevereiro de 2003
Valha-nos saber que até os grandes sábios, os grandes artistas, os homens de negócios e da política, perdem, eles também, imenso tempo em tarefas tão comezinhas como: apertar os cordões dos sapatos, arranjar o nó da gravata (eles), ir ao cabeleireiro e arranjar as unhas (elas), ver-se ao espelho e fazer caretas (eles), ver-se ao espelho e perguntar: "espelho meu há neste reino mais bela do que eu? (elas), dar pontapés nos pneus do carro (eles, elas nunca o fariam porque amam verdadeiramente o seu carro). olhar as montras e bocejar (eles), olhar as montras como quem olha para uma tela de Botticeli (elas), coçar o nariz (eles), retocar o baton (elas), esperar nas filas das repartições públicas, das cantinas e dos supermercados (eles e elas), nas salas de espera dos consultórios médicos e clínicas (eles e elas), cair num engarrafamento matinal (eles e elas), cair na tentação de casar (mais elas do que eles), olhar o horizonte de ar vago e indefinido (eles e elas), pensar (elas), agir e depois pensar (eles), comer e dormir (eles e elas), e, sobretudo, o tempo imenso que todos (eles e elas) são obrigados a perder no tal "lugar solitário onde toda a vaidade se apaga...".
Tudo isto é prosaico e vulgar. E perde-se assim 80% da nossa vida.
É claro que, livres desta maçada, estão os heróis. Ninguém espera ver um Super-homem, um Batman, uma Lara Croft (Tomb Raider) ou "cowbóys" de figura imaculada como Texas Kid, Buck Jones ou Tom Mix a perderem tempo com ninharias domésticas...e ainda bem! Aos heróis e aos deuses nada se questiona e tudo se desculpa.
Medo (pânico, mesmo) tenho eu dos "cowbóys" modernos que, montados numa parafernália de material bélico, são capazes de desencadear uma guerra para gáudio do seu próprio umbigo (e do "ouro negro") e onde os "índios" são considerados "o elo mais fraco".
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Fevereiro de 2003
terça-feira, 6 de agosto de 2013
As Vinte Coisas que Adoro em Ti
Cá estou eu a justificar os meus apegos, os meus amores, as minhas razões por que não consigo emigrar para o Tibete:
1ª - O espaço físico e humano que vai do Minho ao Algarve. Os contrastes de paisagens e climas; o linguajar de pronúncias várias; o mar...(por vezes a pergunta; será que merecemos um país tão belo?)
2ª - A literatura nacional, dos clássicos aos contemporâneos (poetas, ficcionistas...não cito autores para não correr o risco de parecer pretensioso. Só digo que, de facto, "a minha pátria é a língua portuguesa").
3ª -A lusofonia (pela razão anterior)
4ª O Teatro Amador que se pratica no nosso país. O seu lugar na sociedade cultural e recreativa, bem assim como a qualidade média atingida nos últimos anos.
5ª- A mulher portuguesa em toda a plenitude de sua beleza interior e na sensualidade de suas formas arredondadas e curvilíneas. (bem diferente das nórdicas estilo "tábua de engomar")
6ª - A música ligeira portuguesa de todos os tempos: as boas melodias, as bonitas canções...("Porto Sentido" deveria ser o hino oficial da cidade do Porto)
7ª- Algumas figuras políticas do regime democrático actual: Mário Soares, António Guterres, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e...mais ninguém! (os que restam, ficam "condenados" a exercer a função -nobre, diga-se- nas franjas destes quatros perfis).
8ª - O cozido à portuguesa e os rojões à moda do Minho. (A comida na sua função objectiva de matar a fome).
9ª - Um bom vinho tinto alentejano e um branco da região de Setúbal.
10ª - Verificar que 80% dos "Jeeps" que circulam nas nossas estradas, são conduzidos por mulheres... (se fossem homens, diriam que era "o prolongamento do órgão reprodutor", como são mulheres, é o quê?)
11ª - As crónicas de Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares e Ferreira Fernandes.
12ª- A indefectível certeza de que o Arnold Schwarzenegger não será candidato à Câmara de Gaia.
13ª- As Feiras e Mercados com cheirinho a romarias
14ª - A cidade do Porto vista pelo lado de Gaia...seja qual for o miradouro...
15ª - O poder local ao nível de freguesias. (há muita generosidade de que não se fala)
16ª - A ingenuidade castiça e mesclada de "ronha de sete raposas" do português do interior. (há um "Malhadinhas" latente em todos nós)
17ª - A ingenuidade pura de quem acredita em bruxos e adivinhos...(pior para os psiquiatras...)
18ª - A forma correcta como recebemos os estrangeiros...imigrantes incluídos.
19 ª - A unidade territorial em torno de uma misteriosa "Portugalidade" que me fascina.
20ª - A subida de forma do meu FCP.
Raul Leite, Publicado no "O Primeiro de Janeiro" em Outubro de 2003
1ª - O espaço físico e humano que vai do Minho ao Algarve. Os contrastes de paisagens e climas; o linguajar de pronúncias várias; o mar...(por vezes a pergunta; será que merecemos um país tão belo?)
2ª - A literatura nacional, dos clássicos aos contemporâneos (poetas, ficcionistas...não cito autores para não correr o risco de parecer pretensioso. Só digo que, de facto, "a minha pátria é a língua portuguesa").
3ª -A lusofonia (pela razão anterior)
4ª O Teatro Amador que se pratica no nosso país. O seu lugar na sociedade cultural e recreativa, bem assim como a qualidade média atingida nos últimos anos.
5ª- A mulher portuguesa em toda a plenitude de sua beleza interior e na sensualidade de suas formas arredondadas e curvilíneas. (bem diferente das nórdicas estilo "tábua de engomar")
6ª - A música ligeira portuguesa de todos os tempos: as boas melodias, as bonitas canções...("Porto Sentido" deveria ser o hino oficial da cidade do Porto)
7ª- Algumas figuras políticas do regime democrático actual: Mário Soares, António Guterres, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e...mais ninguém! (os que restam, ficam "condenados" a exercer a função -nobre, diga-se- nas franjas destes quatros perfis).
8ª - O cozido à portuguesa e os rojões à moda do Minho. (A comida na sua função objectiva de matar a fome).
9ª - Um bom vinho tinto alentejano e um branco da região de Setúbal.
10ª - Verificar que 80% dos "Jeeps" que circulam nas nossas estradas, são conduzidos por mulheres... (se fossem homens, diriam que era "o prolongamento do órgão reprodutor", como são mulheres, é o quê?)
11ª - As crónicas de Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares e Ferreira Fernandes.
12ª- A indefectível certeza de que o Arnold Schwarzenegger não será candidato à Câmara de Gaia.
13ª- As Feiras e Mercados com cheirinho a romarias
14ª - A cidade do Porto vista pelo lado de Gaia...seja qual for o miradouro...
15ª - O poder local ao nível de freguesias. (há muita generosidade de que não se fala)
16ª - A ingenuidade castiça e mesclada de "ronha de sete raposas" do português do interior. (há um "Malhadinhas" latente em todos nós)
17ª - A ingenuidade pura de quem acredita em bruxos e adivinhos...(pior para os psiquiatras...)
18ª - A forma correcta como recebemos os estrangeiros...imigrantes incluídos.
19 ª - A unidade territorial em torno de uma misteriosa "Portugalidade" que me fascina.
20ª - A subida de forma do meu FCP.
Raul Leite, Publicado no "O Primeiro de Janeiro" em Outubro de 2003
domingo, 4 de agosto de 2013
Todos os caminhos...
Teia elaborada
Destinos traçados,
Caminhos cruzados,
Em busca de algo...
Sempre para além do horizonte.
Não,
Os caminhos não se fazem...caminhando.
Fazem-se como quem faz um filho:
Mistura de sentimentos assimétricos
Onde a ternura se casa
Com o raciocínio lógico.
Nasce um caminho porque...
Eu estou aqui
a construir um atalho
para chegar a ti.
Raul Leite, 04/08/2013
Destinos traçados,
Caminhos cruzados,
Em busca de algo...
Sempre para além do horizonte.
Não,
Os caminhos não se fazem...caminhando.
Fazem-se como quem faz um filho:
Mistura de sentimentos assimétricos
Onde a ternura se casa
Com o raciocínio lógico.
Nasce um caminho porque...
Eu estou aqui
a construir um atalho
para chegar a ti.
Raul Leite, 04/08/2013
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
As vinte coisas que odeio em ti:
Sirvo-me do título para elaborar uma lista daquelas coisas que, às vezes, me dão ganas de emigrar para o Tibete. Sou o primeiro a concordar que não passa de um exercício pueril, fútil, mas mesmo assim libertador. E depois, segundo o meu psicanalista, exorcizar os nossos fantasmas liberta e descomprime tanto como espirrar, (a ordem é arbitrária):
1ª - O lusitano estilo do desenrasca que nos persegue desde Alcácer Quibir. (perdemos por falta de planeamento)
2ª - A atitude desavergonhada e pindérica dos nossos pequenos empresários que, no mesmo terreno onde instalam a pequena fábrica ou oficina, implantam uma enorme moradia com todas as mordomias.
3ª - Esta enorme depressão que se instalou neste bom povo português que, em desespero de causa, é convidado a alinhar no chamado regresso à "União Nacional".
4ª- A chamada literatura "light"que muitos consomem na esperança de emagrecer...o cérebro.
5ª- O "Big Brother", "Casa de Segredos" e quejandos.
6ª - As "Bichas" nas Repartições de Finanças e Centros de Emprego.
7ª - As péssimas instalações de Serviços Públicos e Urgências de Hospitais.
8ª - As organizações de apoio à pobreza que nascem como cogumelos e se insinuam diante dos necessitados de forma arrogante e castradora (recriação da velha caridadezinha humilhante).
9ª - O trânsito automóvel na minha terra, Gulpilhares, outrora tão sossegada.
10ª - A "isenção" dos comentadores políticos em todos os programas de informação dos canais de sinal aberto da nossa querida Televisão.
11ª - Os Programas de nossas Festas e Romarias infestados pela praga maior do século: A música PIMBA.
12ª - O gosto pelo garrafão, que substituiu a máquina de filmar, dos forasteiros.
13ª - O estilho "venha o diabo e escolha" dos políticos João Jardim (populista) e Dr Menezes (irónico).
14ª - Os Presidentes dos nossos três maiores Clubes de Futebol. Incrível como o futebol lhes resiste...
15ª - O "novo-riquismo" pacóvio dos que fazem férias no estrangeiro em detrimento do nosso próprio país.
16ª - A falta de música portuguesa nas nossas rádios de cobertura nacional.
17ª - A falta de "estaleca intelectual" do nosso PR ...(Engenheiros e Economistas, venha o diabo...)
18ª - A falta de vontade dos deputados da AR em redigir a Lei dos mandatos autárquicos de forma cristalina.
19ª -A falta de sentido de humor da Ex.ma Srª Ministra das Finanças (Economista...)
20 ª - Este interminável mês de Agosto, quente e preguiçoso...e sem futebol a sério.
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Outubro de 2003
terça-feira, 23 de julho de 2013
E lá vem o Agosto…
E lá vem o Agosto…
Não mais que um fugidio olhar
No corrupio insano da manhã
clara.
Não mais que um desassossego
No equilíbrio instável dos
meus devaneios.
Sôfrego,
Exploro teu sorriso na manhã plena.
Trôpego,
Sucumbo às garras do teu
perfume
As dimensões da felicidade
têm as medidas da nossa cama.
Já as coordenadas…
Longitude…a Leste do Paraíso
Latitude…bem perto do
Inferno.
Raul Leite, 18 de Julho de
2013
terça-feira, 21 de maio de 2013
E não é que...
Além...
-Onde o céu acaba e o sol se deita-
Há um mundo novo, uma terra prometida,
Entre o véu da morte e o jardim celeste da vida.
Aquém...
-Em orgias de regras e convenções-
A fome dança a valsa nua da morte
E no reboliço do charme do teu decote.
Algures...
-Lago encantado onde dorme o arco-íris-
Terra do sempre e do nunca, nunca mais!
Paraíso, festim negado aos mortais.
Aqui...
-No clamor de aflitivo silêncio-
Na iminência do beco sem saída,
Chegam recados da asneira instituída.
Raul Leite, Gulpilhares, Abril 2014
-Onde o céu acaba e o sol se deita-
Há um mundo novo, uma terra prometida,
Entre o véu da morte e o jardim celeste da vida.
Aquém...
-Em orgias de regras e convenções-
A fome dança a valsa nua da morte
E no reboliço do charme do teu decote.
Algures...
-Lago encantado onde dorme o arco-íris-
Terra do sempre e do nunca, nunca mais!
Paraíso, festim negado aos mortais.
Aqui...
-No clamor de aflitivo silêncio-
Na iminência do beco sem saída,
Chegam recados da asneira instituída.
Raul Leite, Gulpilhares, Abril 2014
domingo, 5 de maio de 2013
A mais bela história de amor
Trocou o seu MERCEDES CLASSE E por um SMART FORTWO...para viver um amor mais próximo e aconchegado.
sexta-feira, 22 de março de 2013
Era uma vez...
A falta que me faz ouvir histórias de "era uma vez..." As que agora se contam são engenhosas, mas não são ingénuas.
Pretendem ser infantis, mas não são inocentes. Dir-se-ia que debaixo do "manto diáfano da fantasia" espreita a nudez provocante e matreira da dialéctica.
Aquela parte de mim que gosta de implicar com tudo diz que é "materialismo de biberão". E por isso vocifera citando uma história infantil muito em voga:
"Era uma vez um dedo da mão que não queria trabalhar, causando, por isso, sérios embaraços aos restantes dedos..."
Meus senhores - diz a tal parte de mim... -Isto é desaforo! Propaganda pura e simples ao colectivismo. Os miúdos têm os olhos pregados no Ronaldo, no Messi...etc. Exemplos de sucesso individual, não estão interessados em ser elos das cadeias de produção maciça. Que diabo -continua a tal parte...Se um dedo não quer trabalhar, despede-se por justa causa e coloca-se outro no seu lugar. Estamos ou não em época de "capitalismo popular" (disfarçado de Liberalismo)?!...É preciso que todos os dedos da mão estejam aptos a fazer o gesto mais "sensual" que existe à face da Terra: O sinal de dinheiro -que é quando o dedo polegar roça o dedo indicador numa mímica que até os Esquimós decifram como sendo linguagem monetária.
A história dos dedos...-continua aquela parte de mim...está muito mal contada. Melhor seria contar o romance dos dois dedos (em forma de V) que se apaixonaram, casaram de raminho de laranja e deram à luz milhões de dedinhos bem comportadinhos e que são o orgulho da raça...
Ah, que saudades de histórias de "era uma vez..."A princesa adormecida pela maçã envenenada...o oportuníssimo príncipe que sempre tarda mas nunca falta com o beijo salvador...A Branca de Neve e os Sete Anões (que não são nove porque sete é um número mágico)...O Capuchino Vermelho (agora é encarnado)...O João Ratão (o tal que, contra natura, casa com a Carochinha) Enfim...Tudo simples...Nada de de fábulas ou metáforas extrapolativas.
Escrevo este texto no dis 25 de Abril, (2003) à tarde, na esperança de disfarçar o nervosismo da estreia da peça infantil que a "troupe" mais nova do TEAGUS vai representar, logo à noite. Eis senão quando, minha neta de oito anos chega-se a mim e dispara: "Avô, a minha professora diz que o 25 de Abril é a liberdade. O que é a Liberdade? É nestas alturas que convém aos adultos não fazerem figuras tristes, e, por isso, lá fui gaguejando: "Liberdade, mais do que um direito, é um sentimento que, tal como o amor, busca-se intensamente e... uma vezes encontra-se, outras não."
É claro que a minha neta fez aquela cara de como quem diz: "O meu avô não regula bem do 2º andar..."
Raul Leite, 2003 (Suplemento de Gaia de "O Primeiro de Janeiro")
A falta que me faz ouvir histórias de "era uma vez..." As que agora se contam são engenhosas, mas não são ingénuas.
Pretendem ser infantis, mas não são inocentes. Dir-se-ia que debaixo do "manto diáfano da fantasia" espreita a nudez provocante e matreira da dialéctica.
Aquela parte de mim que gosta de implicar com tudo diz que é "materialismo de biberão". E por isso vocifera citando uma história infantil muito em voga:
"Era uma vez um dedo da mão que não queria trabalhar, causando, por isso, sérios embaraços aos restantes dedos..."
Meus senhores - diz a tal parte de mim... -Isto é desaforo! Propaganda pura e simples ao colectivismo. Os miúdos têm os olhos pregados no Ronaldo, no Messi...etc. Exemplos de sucesso individual, não estão interessados em ser elos das cadeias de produção maciça. Que diabo -continua a tal parte...Se um dedo não quer trabalhar, despede-se por justa causa e coloca-se outro no seu lugar. Estamos ou não em época de "capitalismo popular" (disfarçado de Liberalismo)?!...É preciso que todos os dedos da mão estejam aptos a fazer o gesto mais "sensual" que existe à face da Terra: O sinal de dinheiro -que é quando o dedo polegar roça o dedo indicador numa mímica que até os Esquimós decifram como sendo linguagem monetária.
A história dos dedos...-continua aquela parte de mim...está muito mal contada. Melhor seria contar o romance dos dois dedos (em forma de V) que se apaixonaram, casaram de raminho de laranja e deram à luz milhões de dedinhos bem comportadinhos e que são o orgulho da raça...
Ah, que saudades de histórias de "era uma vez..."A princesa adormecida pela maçã envenenada...o oportuníssimo príncipe que sempre tarda mas nunca falta com o beijo salvador...A Branca de Neve e os Sete Anões (que não são nove porque sete é um número mágico)...O Capuchino Vermelho (agora é encarnado)...O João Ratão (o tal que, contra natura, casa com a Carochinha) Enfim...Tudo simples...Nada de de fábulas ou metáforas extrapolativas.
Escrevo este texto no dis 25 de Abril, (2003) à tarde, na esperança de disfarçar o nervosismo da estreia da peça infantil que a "troupe" mais nova do TEAGUS vai representar, logo à noite. Eis senão quando, minha neta de oito anos chega-se a mim e dispara: "Avô, a minha professora diz que o 25 de Abril é a liberdade. O que é a Liberdade? É nestas alturas que convém aos adultos não fazerem figuras tristes, e, por isso, lá fui gaguejando: "Liberdade, mais do que um direito, é um sentimento que, tal como o amor, busca-se intensamente e... uma vezes encontra-se, outras não."
É claro que a minha neta fez aquela cara de como quem diz: "O meu avô não regula bem do 2º andar..."
Raul Leite, 2003 (Suplemento de Gaia de "O Primeiro de Janeiro")
sexta-feira, 15 de março de 2013
Subtilezas Femininas
Há quem defenda que por detrás do comportamento dos incautos cidadãos que tiveram o azar de cair num engarrafamento de trânsito, está o carácter de um povo.
Embora reconheça um certo exagero nesta premissa, convenhamos que as reacções diferem conforme a latitude.
Nós, portugueses, que nos regalamos com o "devagar se vai ao longe", com o "stand by" (banho Maria), ficamos piores do que feras quando o trânsito nos "engarrafa".
Dir-se-ia que o verniz dos brandos costume se evapora e o que sobra é um nervoso miudinho e, quando não, a troca de "galhardetes" entre os que procuram furar, a todo o transe, as posições na fila.
Atravessar a Ponte da Arrábida, às nove da manhã, e virar à direita para o Campo Alegre, é proeza que requer uma atitude religiosa: "paciência divina".
Começamos por ter tempos infinitos para admirar a cor gritante e aflitiva do Teatro do Campo Alegre (Seiva Trupe). Chegados ao pontão que atravessa a via, não conseguimos desviar os olhos do velho indigente, protótipo do vagabundo simpático e senhorio daquele espaço há um ror de anos e que, provavelmente, se diverte a olhar-nos de soslaio e sorriso maroto perante os consumidores de horas marcadas.
Mais adiante, e já com meia hora de para/arranca, vamos apreciar, pela enésima vez, os azulejos do edifício da Faculdade de Letras e compará-los com os do Estádio do Sporting (fica-se, para o resto do dia, com a visão quadriculada). Um pouco mais adiante, quase junto ao nosso obscuro objecto do desejo...os semáforos do Campo Alegre, aconteceu, há dias, algo que, contado, ninguém acredita:
O pequeno carro da jovem senhora, não aguentou o esforço daqueles escassos metros percorridos aos soluços e...finou-se! Com meias medidas não esteve o sujeito nervoso do carro detrás: carregou no gatilho, o mesmo é dizer: começou a dar um concerto de buzina com tal pertinácia que mais parecia claque de futebol em dia de Porto/Benfica.
Surpresa foi ver a jovem sair do carro e dirigir-se ao condutor tocador de buzinas e pedir-lhe ajuda mecânica para o seu carrinho atacado pela inércia.
Surpresa, surpresa, foi ver o indelicado senhor fazer uma rápida reconversão nos gestos e nos modos e dirigir-se, solícito, ao carro avariado da (agora, fora do carro, o mundo foi testemunha de que não se limitava a ser jovem e bonita...era Arte em todo o seu esplendor) senhora.
Surpresa, surpresa, surpresa, foi ver a gentil senhora introduzir a mão na janela do carro do "derretido cavalheiro" e gritar alto e bom som: "Agora, enquanto o senhor tenta pôr o meu carro a andar, eu fico aqui a tocar a buzina!".
Não garanto, mas deve ter sido a partir deste pequeno incidente que, as mulheres bonitas do meu País, puseram de lado os raquíticos e escanzelados carritos...e passaram a assenhorar-se da quase totalidade dos pujantes "Jeep´s" que circulam nas nossas estradas.
Raul Leite, Outubro de 2003, (Suplemento de Gaia de "O Primeiro de Janeiro")
Embora reconheça um certo exagero nesta premissa, convenhamos que as reacções diferem conforme a latitude.
Nós, portugueses, que nos regalamos com o "devagar se vai ao longe", com o "stand by" (banho Maria), ficamos piores do que feras quando o trânsito nos "engarrafa".
Dir-se-ia que o verniz dos brandos costume se evapora e o que sobra é um nervoso miudinho e, quando não, a troca de "galhardetes" entre os que procuram furar, a todo o transe, as posições na fila.
Atravessar a Ponte da Arrábida, às nove da manhã, e virar à direita para o Campo Alegre, é proeza que requer uma atitude religiosa: "paciência divina".
Começamos por ter tempos infinitos para admirar a cor gritante e aflitiva do Teatro do Campo Alegre (Seiva Trupe). Chegados ao pontão que atravessa a via, não conseguimos desviar os olhos do velho indigente, protótipo do vagabundo simpático e senhorio daquele espaço há um ror de anos e que, provavelmente, se diverte a olhar-nos de soslaio e sorriso maroto perante os consumidores de horas marcadas.
Mais adiante, e já com meia hora de para/arranca, vamos apreciar, pela enésima vez, os azulejos do edifício da Faculdade de Letras e compará-los com os do Estádio do Sporting (fica-se, para o resto do dia, com a visão quadriculada). Um pouco mais adiante, quase junto ao nosso obscuro objecto do desejo...os semáforos do Campo Alegre, aconteceu, há dias, algo que, contado, ninguém acredita:
O pequeno carro da jovem senhora, não aguentou o esforço daqueles escassos metros percorridos aos soluços e...finou-se! Com meias medidas não esteve o sujeito nervoso do carro detrás: carregou no gatilho, o mesmo é dizer: começou a dar um concerto de buzina com tal pertinácia que mais parecia claque de futebol em dia de Porto/Benfica.
Surpresa foi ver a jovem sair do carro e dirigir-se ao condutor tocador de buzinas e pedir-lhe ajuda mecânica para o seu carrinho atacado pela inércia.
Surpresa, surpresa, foi ver o indelicado senhor fazer uma rápida reconversão nos gestos e nos modos e dirigir-se, solícito, ao carro avariado da (agora, fora do carro, o mundo foi testemunha de que não se limitava a ser jovem e bonita...era Arte em todo o seu esplendor) senhora.
Surpresa, surpresa, surpresa, foi ver a gentil senhora introduzir a mão na janela do carro do "derretido cavalheiro" e gritar alto e bom som: "Agora, enquanto o senhor tenta pôr o meu carro a andar, eu fico aqui a tocar a buzina!".
Não garanto, mas deve ter sido a partir deste pequeno incidente que, as mulheres bonitas do meu País, puseram de lado os raquíticos e escanzelados carritos...e passaram a assenhorar-se da quase totalidade dos pujantes "Jeep´s" que circulam nas nossas estradas.
Raul Leite, Outubro de 2003, (Suplemento de Gaia de "O Primeiro de Janeiro")
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