A tarde de Sábado apanhou os meteorologistas distraídos e brindou-nos com um solzinho maciinho que aqueceu a alminha da gente.
Bom, a tarde de Sábado também ficou mais bonita porque o meu clube ganhou. Claro, não há tarde, por mais carrancuda que seja, que resista quando o meu clube ganha: o sol explode em matizes multi-cores e até a chuva, quando se atreve, é apenas um dom maravilhoso da natureza, mesmo quando nos encharca até aos ossos.
Repito, Sábado o meu clube ganhou, a tarde enfeitou-se de sol e, quando é assim, tudo se ajusta: a minha cidade rejubila, apetece sorrir, beijar criancinhas e cumprimentar polícias.
Chegado aqui, convém esclarecer: nado e criado em Gaia, o Porto é a minha cidade de adopção. Quando falo da minha cidade é a ela que me refiro. Só me sinto citadino quando me embrenho no meu velho Porto.Quando tenho necessidade de me envolver com os que me cercam, quando pretendo acertar o passo pelo ritmo alucinante de uma verdadeira cidade, é no Porto que me atrevo, mesmo sabendo que já me pesa o pé.
O Homem é um animal gregário, pensa sozinho, mas age em grupo. Por vezes isola-se em paisagem solitária, e logo se diz que é o instinto do regresso às origens. Mas ninguém é feliz sozinho. Isto e disto se apercebeu o Humano desde os primórdios. E daí a criação de grandes comunidades funcionando como reserva e conservação da espécie. De forma esbatida e até inconsciente é isso uma cidade.
Claro que, para mim, cidade boa mesmo é onde estão os cinemas, os cafés, as montras, os livros, as igrejas, os jardins, os automóveis...e montes e montes de gente. E o tempo que é preciso, meu rico santo, o tempo que se gasta a saborear a cidade. Cá por mim, que sou aldeão por vocação e feitio, fico tempos esquecidos, de boca aberta, a observar o bulício mágico da minha cidade. E depois, meu riquinho santinho, em que outro sítio, em que outra galáxia, se podem ver tantas mulheres bonitas pisando as ruas como quem dança?
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Abril 2003
Assuntos indiferenciados. Tentativa de me obrigar a escrever um poema todos os dias úteis (nos dias inúteis, transformo-me num zombie...como os demais)
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
À sombra de um rumoroso ribeiro
Correndo o risco de ser repetitivo, volto ao tema da divisão etária da vida de uma pessoa:
Percebe-se que não aceito de ânimo leve que o espaço de vida que vai dos 25 aos 55 anos não seja credor da máxima atenção dos gestores da vida pública. Ao contrário do que se diz, é nesse espaço de tempo que tudo se define: a estabilização da vida sentimental, a profissão, os afectos políticos e desportivos, a depuração do carácter...Em suma, para o bem e para o mal, cumpre-se o Homem!
São trinta anos de vida. É o chamado tempo de jogo! Antes disso, somos crianças e jovens. Quer dizer: vamos aos treinos! Por volta dos 25 entramos em campo para o desafio de nossas vidas. Depois dos 55 anos, somos excelentes espectadores de um espectáculo que seguimos completamente extasiados. O ritmo abranda: passamos de um filme de "artes marciais" para o cinema de Manuel de Oliveira. E isso é bom! "É sorver em delicados haustos/preciosos néctares/com requintes de velhos mestres" (escrevi isto, não sei onde). É um acordar e agradecer a dádiva de mais um dia. É o tempo de "filosofar com pachorra e facúndia" (Eça). É o ripanço à sombra de um rumoroso ribeiro. Ora, se é tudo isto, porquê o estigma: 3ª idade?
Deixem-se de conversa fiada! Não se distraiam e prestem especial atenção aos jogadores. Os verdadeiros atletas são os da faixa etária 25/55 anos. Eles são os verdadeiros reis do espectáculo. Durante trinta anos vão dar tudo, não por qualquer estúpido amor à camisola, mas porque sabem que estão em completo estado de busca do sentido da vida. E por isso lutam. E por isso jogam. Mesmo sabendo que, no final, uns cantarão victória, outros ficarão o resto de suas vidas a lamber as feridas. É a vida!
Mas então, e a juventude? Não é na juventude que reside a aposta no futuro?
Meus amigos, chavões à parte, os jovens funcionam num comprimento de onda muito próximo de quem ainda não descobriu que a vida eterna é coisa que não existe. E isso não é mau: quando o ritmo abrandar...
É também por isso que defendo que o futuro da juventude será sempre o reflexo dos anónimos cidadãos da faixa 25/55 anos. É lá que estão as verdadeiras referências que hão-de inspirar o destino dos jovens. É lá que estão os pais, os professores, os artistas...e até os maus exemplos, claro!
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Julho de 2003
Percebe-se que não aceito de ânimo leve que o espaço de vida que vai dos 25 aos 55 anos não seja credor da máxima atenção dos gestores da vida pública. Ao contrário do que se diz, é nesse espaço de tempo que tudo se define: a estabilização da vida sentimental, a profissão, os afectos políticos e desportivos, a depuração do carácter...Em suma, para o bem e para o mal, cumpre-se o Homem!
São trinta anos de vida. É o chamado tempo de jogo! Antes disso, somos crianças e jovens. Quer dizer: vamos aos treinos! Por volta dos 25 entramos em campo para o desafio de nossas vidas. Depois dos 55 anos, somos excelentes espectadores de um espectáculo que seguimos completamente extasiados. O ritmo abranda: passamos de um filme de "artes marciais" para o cinema de Manuel de Oliveira. E isso é bom! "É sorver em delicados haustos/preciosos néctares/com requintes de velhos mestres" (escrevi isto, não sei onde). É um acordar e agradecer a dádiva de mais um dia. É o tempo de "filosofar com pachorra e facúndia" (Eça). É o ripanço à sombra de um rumoroso ribeiro. Ora, se é tudo isto, porquê o estigma: 3ª idade?
Deixem-se de conversa fiada! Não se distraiam e prestem especial atenção aos jogadores. Os verdadeiros atletas são os da faixa etária 25/55 anos. Eles são os verdadeiros reis do espectáculo. Durante trinta anos vão dar tudo, não por qualquer estúpido amor à camisola, mas porque sabem que estão em completo estado de busca do sentido da vida. E por isso lutam. E por isso jogam. Mesmo sabendo que, no final, uns cantarão victória, outros ficarão o resto de suas vidas a lamber as feridas. É a vida!
Mas então, e a juventude? Não é na juventude que reside a aposta no futuro?
Meus amigos, chavões à parte, os jovens funcionam num comprimento de onda muito próximo de quem ainda não descobriu que a vida eterna é coisa que não existe. E isso não é mau: quando o ritmo abrandar...
É também por isso que defendo que o futuro da juventude será sempre o reflexo dos anónimos cidadãos da faixa 25/55 anos. É lá que estão as verdadeiras referências que hão-de inspirar o destino dos jovens. É lá que estão os pais, os professores, os artistas...e até os maus exemplos, claro!
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Julho de 2003
Vias sinuosas
"Nós éramos tão pobres que o arco-íris quando passava na nossa rua...era a preto e branco".
A pobreza tem servido de mote a muitos exercícios literários, cinematográficos a artes afins. Ser pobre nem sempre é sinónimo de indigente ou falhado. Ligo muito o estatuto de pobre ao operário, trabalhador por conta de outrem. São estes que constituem a maior parte da população activa; é a maioria destes que vive no dealbar da pobreza. São estes que não fogem aos impostos. E são estes os tais -como dizia Almeida Garret- necessários para produzirem ricos.
Entretanto, "os fazedores de opinião" que proliferam na imprensa, e que ultimamente nos arrasam com a reprimenda: "É a Economia, seus burros!" Dir-nos-ão que é preciso defender a flexibilidade, a precariedade e tudo o mais que o novo Código de Trabalho consagra. Dir-nos-ão ainda que é preciso modernizar em nome dos mercados e que a competitividade só se consegue com leis de trabalho mais elásticas.
Julgo saber que a maioria dos profissionais da imprensa gostaria de menos precariedade, flexibilidade, etc. Julgo saber que muitos jornalistas e pessoal gráfico fizeram grandes carreiras, em grandes jornais, e hoje são cidadãos de grande valia e prestígio. Julgo ainda saber que, ao longo de dezenas de anos, os gráficos e jornalistas foram sempre a vanguarda dos direitos e garantias de quem trabalha.
O problema estará naqueles que ganharam o estatuto de "prima-donas" do jornalismo e que passaram a vociferar, alto e bom som, em desfavor dos direitos conseguidos pelos trabalhadores e nos dizem: -"Vocês tem respostas antigas para perguntas novas". É só isso que nos dizem; é só isso que escrevem com toda a pertinácia, como se fossem portadores de nova mensagem evangélica. Fazem-no, porque conquistaram a auréola de polémicos à custa de escreverem o contrário daquilo que pensam e fazerem o invés daquilo que sugerem. São o terror dos políticos, de artistas e de figuras ditas públicas. São os novos Senadores da Nação usufruindo de um cargo para o qual não foram eleitos.
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Fevereiro de 2003
A pobreza tem servido de mote a muitos exercícios literários, cinematográficos a artes afins. Ser pobre nem sempre é sinónimo de indigente ou falhado. Ligo muito o estatuto de pobre ao operário, trabalhador por conta de outrem. São estes que constituem a maior parte da população activa; é a maioria destes que vive no dealbar da pobreza. São estes que não fogem aos impostos. E são estes os tais -como dizia Almeida Garret- necessários para produzirem ricos.
Entretanto, "os fazedores de opinião" que proliferam na imprensa, e que ultimamente nos arrasam com a reprimenda: "É a Economia, seus burros!" Dir-nos-ão que é preciso defender a flexibilidade, a precariedade e tudo o mais que o novo Código de Trabalho consagra. Dir-nos-ão ainda que é preciso modernizar em nome dos mercados e que a competitividade só se consegue com leis de trabalho mais elásticas.
Julgo saber que a maioria dos profissionais da imprensa gostaria de menos precariedade, flexibilidade, etc. Julgo saber que muitos jornalistas e pessoal gráfico fizeram grandes carreiras, em grandes jornais, e hoje são cidadãos de grande valia e prestígio. Julgo ainda saber que, ao longo de dezenas de anos, os gráficos e jornalistas foram sempre a vanguarda dos direitos e garantias de quem trabalha.
O problema estará naqueles que ganharam o estatuto de "prima-donas" do jornalismo e que passaram a vociferar, alto e bom som, em desfavor dos direitos conseguidos pelos trabalhadores e nos dizem: -"Vocês tem respostas antigas para perguntas novas". É só isso que nos dizem; é só isso que escrevem com toda a pertinácia, como se fossem portadores de nova mensagem evangélica. Fazem-no, porque conquistaram a auréola de polémicos à custa de escreverem o contrário daquilo que pensam e fazerem o invés daquilo que sugerem. São o terror dos políticos, de artistas e de figuras ditas públicas. São os novos Senadores da Nação usufruindo de um cargo para o qual não foram eleitos.
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Fevereiro de 2003
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Eles e Elas...
...ainda por cima somos obrigados a reconhecer que a cadência diária do calendário, não se compadece com esta chaga ansiosa que nos consome em lume brando. E que o tempo, esse, esvai-se por entre os dedos enquanto nos enreda em tarefas pouco edificantes e nos reserva poucos minutos para sermos importantes...a nossos olhos, claro!
Valha-nos saber que até os grandes sábios, os grandes artistas, os homens de negócios e da política, perdem, eles também, imenso tempo em tarefas tão comezinhas como: apertar os cordões dos sapatos, arranjar o nó da gravata (eles), ir ao cabeleireiro e arranjar as unhas (elas), ver-se ao espelho e fazer caretas (eles), ver-se ao espelho e perguntar: "espelho meu há neste reino mais bela do que eu? (elas), dar pontapés nos pneus do carro (eles, elas nunca o fariam porque amam verdadeiramente o seu carro). olhar as montras e bocejar (eles), olhar as montras como quem olha para uma tela de Botticeli (elas), coçar o nariz (eles), retocar o baton (elas), esperar nas filas das repartições públicas, das cantinas e dos supermercados (eles e elas), nas salas de espera dos consultórios médicos e clínicas (eles e elas), cair num engarrafamento matinal (eles e elas), cair na tentação de casar (mais elas do que eles), olhar o horizonte de ar vago e indefinido (eles e elas), pensar (elas), agir e depois pensar (eles), comer e dormir (eles e elas), e, sobretudo, o tempo imenso que todos (eles e elas) são obrigados a perder no tal "lugar solitário onde toda a vaidade se apaga...".
Tudo isto é prosaico e vulgar. E perde-se assim 80% da nossa vida.
É claro que, livres desta maçada, estão os heróis. Ninguém espera ver um Super-homem, um Batman, uma Lara Croft (Tomb Raider) ou "cowbóys" de figura imaculada como Texas Kid, Buck Jones ou Tom Mix a perderem tempo com ninharias domésticas...e ainda bem! Aos heróis e aos deuses nada se questiona e tudo se desculpa.
Medo (pânico, mesmo) tenho eu dos "cowbóys" modernos que, montados numa parafernália de material bélico, são capazes de desencadear uma guerra para gáudio do seu próprio umbigo (e do "ouro negro") e onde os "índios" são considerados "o elo mais fraco".
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Fevereiro de 2003
Valha-nos saber que até os grandes sábios, os grandes artistas, os homens de negócios e da política, perdem, eles também, imenso tempo em tarefas tão comezinhas como: apertar os cordões dos sapatos, arranjar o nó da gravata (eles), ir ao cabeleireiro e arranjar as unhas (elas), ver-se ao espelho e fazer caretas (eles), ver-se ao espelho e perguntar: "espelho meu há neste reino mais bela do que eu? (elas), dar pontapés nos pneus do carro (eles, elas nunca o fariam porque amam verdadeiramente o seu carro). olhar as montras e bocejar (eles), olhar as montras como quem olha para uma tela de Botticeli (elas), coçar o nariz (eles), retocar o baton (elas), esperar nas filas das repartições públicas, das cantinas e dos supermercados (eles e elas), nas salas de espera dos consultórios médicos e clínicas (eles e elas), cair num engarrafamento matinal (eles e elas), cair na tentação de casar (mais elas do que eles), olhar o horizonte de ar vago e indefinido (eles e elas), pensar (elas), agir e depois pensar (eles), comer e dormir (eles e elas), e, sobretudo, o tempo imenso que todos (eles e elas) são obrigados a perder no tal "lugar solitário onde toda a vaidade se apaga...".
Tudo isto é prosaico e vulgar. E perde-se assim 80% da nossa vida.
É claro que, livres desta maçada, estão os heróis. Ninguém espera ver um Super-homem, um Batman, uma Lara Croft (Tomb Raider) ou "cowbóys" de figura imaculada como Texas Kid, Buck Jones ou Tom Mix a perderem tempo com ninharias domésticas...e ainda bem! Aos heróis e aos deuses nada se questiona e tudo se desculpa.
Medo (pânico, mesmo) tenho eu dos "cowbóys" modernos que, montados numa parafernália de material bélico, são capazes de desencadear uma guerra para gáudio do seu próprio umbigo (e do "ouro negro") e onde os "índios" são considerados "o elo mais fraco".
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Fevereiro de 2003
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