Há quem defenda que por detrás do comportamento dos incautos cidadãos que tiveram o azar de cair num engarrafamento de trânsito, está o carácter de um povo.
Embora reconheça um certo exagero nesta premissa, convenhamos que as reacções diferem conforme a latitude.
Nós, portugueses, que nos regalamos com o "devagar se vai ao longe", com o "stand by" (banho Maria), ficamos piores do que feras quando o trânsito nos "engarrafa".
Dir-se-ia que o verniz dos brandos costume se evapora e o que sobra é um nervoso miudinho e, quando não, a troca de "galhardetes" entre os que procuram furar, a todo o transe, as posições na fila.
Atravessar a Ponte da Arrábida, às nove da manhã, e virar à direita para o Campo Alegre, é proeza que requer uma atitude religiosa: "paciência divina".
Começamos por ter tempos infinitos para admirar a cor gritante e aflitiva do Teatro do Campo Alegre (Seiva Trupe). Chegados ao pontão que atravessa a via, não conseguimos desviar os olhos do velho indigente, protótipo do vagabundo simpático e senhorio daquele espaço há um ror de anos e que, provavelmente, se diverte a olhar-nos de soslaio e sorriso maroto perante os consumidores de horas marcadas.
Mais adiante, e já com meia hora de para/arranca, vamos apreciar, pela enésima vez, os azulejos do edifício da Faculdade de Letras e compará-los com os do Estádio do Sporting (fica-se, para o resto do dia, com a visão quadriculada). Um pouco mais adiante, quase junto ao nosso obscuro objecto do desejo...os semáforos do Campo Alegre, aconteceu, há dias, algo que, contado, ninguém acredita:
O pequeno carro da jovem senhora, não aguentou o esforço daqueles escassos metros percorridos aos soluços e...finou-se! Com meias medidas não esteve o sujeito nervoso do carro detrás: carregou no gatilho, o mesmo é dizer: começou a dar um concerto de buzina com tal pertinácia que mais parecia claque de futebol em dia de Porto/Benfica.
Surpresa foi ver a jovem sair do carro e dirigir-se ao condutor tocador de buzinas e pedir-lhe ajuda mecânica para o seu carrinho atacado pela inércia.
Surpresa, surpresa, foi ver o indelicado senhor fazer uma rápida reconversão nos gestos e nos modos e dirigir-se, solícito, ao carro avariado da (agora, fora do carro, o mundo foi testemunha de que não se limitava a ser jovem e bonita...era Arte em todo o seu esplendor) senhora.
Surpresa, surpresa, surpresa, foi ver a gentil senhora introduzir a mão na janela do carro do "derretido cavalheiro" e gritar alto e bom som: "Agora, enquanto o senhor tenta pôr o meu carro a andar, eu fico aqui a tocar a buzina!".
Não garanto, mas deve ter sido a partir deste pequeno incidente que, as mulheres bonitas do meu País, puseram de lado os raquíticos e escanzelados carritos...e passaram a assenhorar-se da quase totalidade dos pujantes "Jeep´s" que circulam nas nossas estradas.
Raul Leite, Outubro de 2003, (Suplemento de Gaia de "O Primeiro de Janeiro")
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