Não há cerimónia de casamento que consiga furtar-se ao capricho do fotógrafo em querer retratar os noivos, ao cair da tarde, junto à praia, em contra-luz, com o sol a desaparecer no horizonte.
É certo que me refiro aos casamentos (acontecimento que se fosse coisa boa não precisava de testemunhas) que ainda vão acontecendo nas freguesias do litoral de V N de Gaia.
A foto com o crepúsculo solar e os noivos em contra-luz é coisa bonita de se ver, sim senhor! Mas, o acto de tão banalizado, já faz parte da cultura "pimba" tão celebrada neste nosso jardim à beira-mar plantado.
É claro que estou a fazer juízo de valores...(eu próprio tenho uma dessas fotos...) E no entanto, na escala de produtos catalogados na dita cultura do piroso, esse nem é o mais pindérico. Porque o mais assustador, o mais aberrante, o mais inenarrável é o famigerado quadro do miúdo com as lágrimas em catarata pela cara abaixo.
Confesso que, diante de tal "obra d'arte", também me apetece chorar...de raiva! Sim, porque isto de admirar, fechado numa moldura, uma criança a chorar, deve inspirar elevadíssimos sentimentos, carradas de amor ao próximo...Caso contrário, o mínimo que se pode deduzir é que o sadismo cultiva-se de forma pouco subtil.
Entretanto, aquela parte de mim que se recusa a ver no comportamento humano todos os males do mundo, admite que o tão apreciado quadro (pendurado em casa de muito "boa gente") não seja um símbolo à crueldade.
Mesmo assim, recomendo a realização, ao nível nacional, de uma fogueira monumental alimentada com toda essa "tralha armada ao pingarelho". Com os meninos à volta, rindo e cantando num fim de tarde fantasmagórico, com as silhuetas recortadas a contra-luz, num ritual aliciante e...pagão.
Sim, porque isto da purificação através do fogo, pode parecer tipo Inquisição, mas, convenhamos, certos fins justificam os meios...
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro" Abril de 2002
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