Era uma vez...
A falta que me faz ouvir histórias de "era uma vez..." As que agora se contam são engenhosas, mas não são ingénuas.
Pretendem ser infantis, mas não são inocentes. Dir-se-ia que debaixo do "manto diáfano da fantasia" espreita a nudez provocante e matreira da dialéctica.
Aquela parte de mim que gosta de implicar com tudo diz que é "materialismo de biberão". E por isso vocifera citando uma história infantil muito em voga:
"Era uma vez um dedo da mão que não queria trabalhar, causando, por isso, sérios embaraços aos restantes dedos..."
Meus senhores - diz a tal parte de mim... -Isto é desaforo! Propaganda pura e simples ao colectivismo. Os miúdos têm os olhos pregados no Ronaldo, no Messi...etc. Exemplos de sucesso individual, não estão interessados em ser elos das cadeias de produção maciça. Que diabo -continua a tal parte...Se um dedo não quer trabalhar, despede-se por justa causa e coloca-se outro no seu lugar. Estamos ou não em época de "capitalismo popular" (disfarçado de Liberalismo)?!...É preciso que todos os dedos da mão estejam aptos a fazer o gesto mais "sensual" que existe à face da Terra: O sinal de dinheiro -que é quando o dedo polegar roça o dedo indicador numa mímica que até os Esquimós decifram como sendo linguagem monetária.
A história dos dedos...-continua aquela parte de mim...está muito mal contada. Melhor seria contar o romance dos dois dedos (em forma de V) que se apaixonaram, casaram de raminho de laranja e deram à luz milhões de dedinhos bem comportadinhos e que são o orgulho da raça...
Ah, que saudades de histórias de "era uma vez..."A princesa adormecida pela maçã envenenada...o oportuníssimo príncipe que sempre tarda mas nunca falta com o beijo salvador...A Branca de Neve e os Sete Anões (que não são nove porque sete é um número mágico)...O Capuchino Vermelho (agora é encarnado)...O João Ratão (o tal que, contra natura, casa com a Carochinha) Enfim...Tudo simples...Nada de de fábulas ou metáforas extrapolativas.
Escrevo este texto no dis 25 de Abril, (2003) à tarde, na esperança de disfarçar o nervosismo da estreia da peça infantil que a "troupe" mais nova do TEAGUS vai representar, logo à noite. Eis senão quando, minha neta de oito anos chega-se a mim e dispara: "Avô, a minha professora diz que o 25 de Abril é a liberdade. O que é a Liberdade? É nestas alturas que convém aos adultos não fazerem figuras tristes, e, por isso, lá fui gaguejando: "Liberdade, mais do que um direito, é um sentimento que, tal como o amor, busca-se intensamente e... uma vezes encontra-se, outras não."
É claro que a minha neta fez aquela cara de como quem diz: "O meu avô não regula bem do 2º andar..."
Raul Leite, 2003 (Suplemento de Gaia de "O Primeiro de Janeiro")
Assuntos indiferenciados. Tentativa de me obrigar a escrever um poema todos os dias úteis (nos dias inúteis, transformo-me num zombie...como os demais)
sexta-feira, 22 de março de 2013
sexta-feira, 15 de março de 2013
Subtilezas Femininas
Há quem defenda que por detrás do comportamento dos incautos cidadãos que tiveram o azar de cair num engarrafamento de trânsito, está o carácter de um povo.
Embora reconheça um certo exagero nesta premissa, convenhamos que as reacções diferem conforme a latitude.
Nós, portugueses, que nos regalamos com o "devagar se vai ao longe", com o "stand by" (banho Maria), ficamos piores do que feras quando o trânsito nos "engarrafa".
Dir-se-ia que o verniz dos brandos costume se evapora e o que sobra é um nervoso miudinho e, quando não, a troca de "galhardetes" entre os que procuram furar, a todo o transe, as posições na fila.
Atravessar a Ponte da Arrábida, às nove da manhã, e virar à direita para o Campo Alegre, é proeza que requer uma atitude religiosa: "paciência divina".
Começamos por ter tempos infinitos para admirar a cor gritante e aflitiva do Teatro do Campo Alegre (Seiva Trupe). Chegados ao pontão que atravessa a via, não conseguimos desviar os olhos do velho indigente, protótipo do vagabundo simpático e senhorio daquele espaço há um ror de anos e que, provavelmente, se diverte a olhar-nos de soslaio e sorriso maroto perante os consumidores de horas marcadas.
Mais adiante, e já com meia hora de para/arranca, vamos apreciar, pela enésima vez, os azulejos do edifício da Faculdade de Letras e compará-los com os do Estádio do Sporting (fica-se, para o resto do dia, com a visão quadriculada). Um pouco mais adiante, quase junto ao nosso obscuro objecto do desejo...os semáforos do Campo Alegre, aconteceu, há dias, algo que, contado, ninguém acredita:
O pequeno carro da jovem senhora, não aguentou o esforço daqueles escassos metros percorridos aos soluços e...finou-se! Com meias medidas não esteve o sujeito nervoso do carro detrás: carregou no gatilho, o mesmo é dizer: começou a dar um concerto de buzina com tal pertinácia que mais parecia claque de futebol em dia de Porto/Benfica.
Surpresa foi ver a jovem sair do carro e dirigir-se ao condutor tocador de buzinas e pedir-lhe ajuda mecânica para o seu carrinho atacado pela inércia.
Surpresa, surpresa, foi ver o indelicado senhor fazer uma rápida reconversão nos gestos e nos modos e dirigir-se, solícito, ao carro avariado da (agora, fora do carro, o mundo foi testemunha de que não se limitava a ser jovem e bonita...era Arte em todo o seu esplendor) senhora.
Surpresa, surpresa, surpresa, foi ver a gentil senhora introduzir a mão na janela do carro do "derretido cavalheiro" e gritar alto e bom som: "Agora, enquanto o senhor tenta pôr o meu carro a andar, eu fico aqui a tocar a buzina!".
Não garanto, mas deve ter sido a partir deste pequeno incidente que, as mulheres bonitas do meu País, puseram de lado os raquíticos e escanzelados carritos...e passaram a assenhorar-se da quase totalidade dos pujantes "Jeep´s" que circulam nas nossas estradas.
Raul Leite, Outubro de 2003, (Suplemento de Gaia de "O Primeiro de Janeiro")
Embora reconheça um certo exagero nesta premissa, convenhamos que as reacções diferem conforme a latitude.
Nós, portugueses, que nos regalamos com o "devagar se vai ao longe", com o "stand by" (banho Maria), ficamos piores do que feras quando o trânsito nos "engarrafa".
Dir-se-ia que o verniz dos brandos costume se evapora e o que sobra é um nervoso miudinho e, quando não, a troca de "galhardetes" entre os que procuram furar, a todo o transe, as posições na fila.
Atravessar a Ponte da Arrábida, às nove da manhã, e virar à direita para o Campo Alegre, é proeza que requer uma atitude religiosa: "paciência divina".
Começamos por ter tempos infinitos para admirar a cor gritante e aflitiva do Teatro do Campo Alegre (Seiva Trupe). Chegados ao pontão que atravessa a via, não conseguimos desviar os olhos do velho indigente, protótipo do vagabundo simpático e senhorio daquele espaço há um ror de anos e que, provavelmente, se diverte a olhar-nos de soslaio e sorriso maroto perante os consumidores de horas marcadas.
Mais adiante, e já com meia hora de para/arranca, vamos apreciar, pela enésima vez, os azulejos do edifício da Faculdade de Letras e compará-los com os do Estádio do Sporting (fica-se, para o resto do dia, com a visão quadriculada). Um pouco mais adiante, quase junto ao nosso obscuro objecto do desejo...os semáforos do Campo Alegre, aconteceu, há dias, algo que, contado, ninguém acredita:
O pequeno carro da jovem senhora, não aguentou o esforço daqueles escassos metros percorridos aos soluços e...finou-se! Com meias medidas não esteve o sujeito nervoso do carro detrás: carregou no gatilho, o mesmo é dizer: começou a dar um concerto de buzina com tal pertinácia que mais parecia claque de futebol em dia de Porto/Benfica.
Surpresa foi ver a jovem sair do carro e dirigir-se ao condutor tocador de buzinas e pedir-lhe ajuda mecânica para o seu carrinho atacado pela inércia.
Surpresa, surpresa, foi ver o indelicado senhor fazer uma rápida reconversão nos gestos e nos modos e dirigir-se, solícito, ao carro avariado da (agora, fora do carro, o mundo foi testemunha de que não se limitava a ser jovem e bonita...era Arte em todo o seu esplendor) senhora.
Surpresa, surpresa, surpresa, foi ver a gentil senhora introduzir a mão na janela do carro do "derretido cavalheiro" e gritar alto e bom som: "Agora, enquanto o senhor tenta pôr o meu carro a andar, eu fico aqui a tocar a buzina!".
Não garanto, mas deve ter sido a partir deste pequeno incidente que, as mulheres bonitas do meu País, puseram de lado os raquíticos e escanzelados carritos...e passaram a assenhorar-se da quase totalidade dos pujantes "Jeep´s" que circulam nas nossas estradas.
Raul Leite, Outubro de 2003, (Suplemento de Gaia de "O Primeiro de Janeiro")
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