sexta-feira, 22 de março de 2013

Era uma vez...

   A falta que me faz ouvir histórias de "era uma vez..." As que agora se contam são engenhosas, mas não são ingénuas.
   Pretendem ser infantis, mas não são inocentes. Dir-se-ia que debaixo do "manto diáfano da fantasia" espreita a nudez provocante e matreira da dialéctica.
   Aquela parte de mim que gosta de implicar com tudo diz que é "materialismo de biberão". E por isso vocifera citando uma história infantil muito em voga:
   "Era uma vez um dedo da mão que não queria trabalhar, causando, por isso, sérios embaraços aos restantes dedos..."
   Meus senhores - diz a tal parte de mim... -Isto é desaforo! Propaganda pura e simples ao colectivismo. Os miúdos têm os olhos pregados no Ronaldo, no Messi...etc. Exemplos de sucesso individual, não estão interessados em ser elos das cadeias de produção maciça. Que diabo -continua a tal parte...Se um dedo não quer trabalhar, despede-se por justa causa e coloca-se outro no seu lugar. Estamos ou não em época de "capitalismo popular" (disfarçado de Liberalismo)?!...É preciso que todos os dedos da mão estejam aptos a fazer o gesto mais "sensual" que existe à face da Terra: O sinal de dinheiro -que é quando o dedo polegar roça o dedo indicador numa mímica que até os Esquimós decifram como sendo linguagem monetária.
A história dos dedos...-continua aquela parte de mim...está muito mal contada. Melhor seria contar o romance dos dois dedos (em forma de V) que se apaixonaram, casaram de raminho de laranja e deram à luz milhões de dedinhos bem comportadinhos e que são o orgulho da raça...
   Ah, que saudades de histórias de "era uma vez..."A princesa adormecida pela maçã envenenada...o oportuníssimo príncipe que sempre tarda mas nunca falta com o beijo salvador...A Branca de Neve e os Sete Anões (que não são nove porque sete é um número mágico)...O Capuchino Vermelho (agora é encarnado)...O João Ratão (o tal que, contra natura, casa com a Carochinha) Enfim...Tudo simples...Nada de de fábulas ou metáforas extrapolativas.
   Escrevo este texto no dis 25 de Abril, (2003) à tarde, na esperança de disfarçar o nervosismo da estreia da peça infantil que a "troupe" mais nova do TEAGUS vai representar, logo à noite. Eis senão quando, minha neta de oito anos chega-se a mim e dispara: "Avô, a minha professora diz que o 25 de Abril é a liberdade. O que é a Liberdade? É nestas alturas que convém aos adultos não fazerem figuras tristes, e, por isso, lá fui gaguejando: "Liberdade, mais do que um direito, é um sentimento que, tal como o amor, busca-se intensamente e... uma vezes encontra-se, outras não."
   É claro que a minha neta fez aquela cara de como quem diz: "O meu avô não regula bem do 2º andar..."

Raul Leite, 2003 (Suplemento de Gaia de "O Primeiro de Janeiro")

 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Subtilezas Femininas

   Há quem defenda que por detrás do comportamento dos incautos cidadãos que tiveram o azar de cair num engarrafamento de trânsito, está o carácter de um povo.
Embora reconheça um certo exagero nesta premissa, convenhamos que as reacções diferem conforme a latitude.
   Nós, portugueses, que nos regalamos com o "devagar se vai ao longe", com o "stand by" (banho Maria), ficamos piores do que feras quando o trânsito nos "engarrafa".
   Dir-se-ia que o verniz dos brandos costume se evapora e o que sobra é um nervoso miudinho e, quando não, a troca de "galhardetes" entre os que procuram furar, a todo o transe, as posições na fila.
   Atravessar a Ponte da Arrábida, às nove da manhã, e virar à direita para o Campo Alegre, é proeza que requer uma atitude religiosa: "paciência divina".
   Começamos por ter tempos infinitos para admirar a cor gritante e aflitiva do Teatro do Campo Alegre (Seiva Trupe). Chegados ao pontão que atravessa a via, não conseguimos desviar os olhos do velho indigente, protótipo do vagabundo simpático e senhorio daquele espaço há um ror de anos e que, provavelmente, se diverte a olhar-nos de soslaio e sorriso maroto perante os consumidores de horas marcadas.
   Mais adiante, e já com meia hora de para/arranca, vamos apreciar, pela enésima vez, os azulejos do edifício da Faculdade de Letras e compará-los com os do Estádio do Sporting (fica-se, para o resto do dia, com a visão quadriculada). Um pouco mais adiante, quase junto ao nosso obscuro objecto do desejo...os semáforos do Campo Alegre, aconteceu, há dias, algo que, contado, ninguém acredita:
   O pequeno carro da jovem senhora, não aguentou o esforço daqueles escassos metros percorridos aos soluços e...finou-se! Com meias medidas não esteve o sujeito nervoso do carro detrás: carregou no gatilho, o mesmo é dizer: começou a dar um concerto de buzina com tal pertinácia que mais parecia claque de futebol em dia de Porto/Benfica.
   Surpresa foi ver a jovem sair do carro e dirigir-se ao condutor tocador de buzinas e pedir-lhe ajuda mecânica para o seu carrinho atacado pela inércia.
  Surpresa, surpresa, foi ver o indelicado senhor fazer uma rápida reconversão nos gestos e nos modos e dirigir-se, solícito, ao carro avariado da (agora, fora do carro, o mundo foi testemunha de que não se limitava a ser jovem e bonita...era Arte em todo o seu esplendor) senhora.
   Surpresa, surpresa, surpresa, foi ver a gentil senhora introduzir a mão na janela do carro do "derretido cavalheiro" e gritar alto e bom som: "Agora, enquanto o senhor tenta pôr o meu carro a andar, eu fico aqui a tocar a buzina!".
   Não garanto, mas deve ter sido a partir deste pequeno incidente que, as mulheres bonitas do meu País, puseram de lado os raquíticos e escanzelados carritos...e passaram a assenhorar-se da quase totalidade dos pujantes "Jeep´s" que circulam nas nossas estradas.

Raul Leite, Outubro de 2003, (Suplemento de Gaia de "O Primeiro de Janeiro")