terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Feios, porcos e maus

   "Ir sempre mais longe deixa-nos, irremediavelmente, à mesma distância do horizonte". Escrevi esta frase, há anos,em jeito de sentença e de fórmula matemática, espécie de teorema porque demonstrável.
   Tal me ocorre porque, neste assunto candente da pedofilia, os meios de informação já foram longe de mais e o horizonte continua à mesma distância.
   Tenho para mim que, nestes casos, importa que tudo esteja no seu devido lugar. Ou seja: que o cidadão esteja sempre em estado de alerta, que a Justiça actue, que o Estado funcione e que a sociedade rejubile porque os seus valores mais elevados são preservados.
   A exploração do sensacionalismo, os julgamentos na praça pública em nome de maiores audiências, são também um tipo de pornografia que nos merece repugnância.
   Ou então, será a partir daí que todos nos transformaremos em "Feios, Porcos e Maus" fazendo jus à canga que muitos nos atribuem quando nos querem fazer passar por "cidadãos de segunda" desta Europa com laivos de nova-rica.
A propósito, o filme "Feios, Porcos e Maus", de Ettore Scola, é uma pequena obra-prima do cinema europeu. Dito assim, estou apenas a servir-me de um chavão que diz tudo e não diz nada. Mas, se vos disser que se trata de uma comédia social, em tom neo-realista, cuja acção se passa num bairro de lata, na periferia de Roma e onde o ambiente não cheira a "chanel five", (os filmes têm cheiros, sabiam?) mas onde, por vezes, deixa na sala um suave perfume a poesia que nos eleva e nos purifica.
   É um filme de 1976 e, por isso, os detractores da corrente neo-realista no cinema e na literatura, podem baixar as defesas, já que se trata de uma obra de uma modernidade impressionante.
   E é precisamente aí que a "porca torce o rabo..." Quando nos amarram ao epíteto "Feios, Porcos e Maus" deveria ser a esses valores de obra-prima do cinema que nos deveriam associar. E nunca a essa condenação de iletrados, maus profissionais, mentecaptos e afins.
   Cá por mim, cidadão a caminho dos sessenta, e que julga ser o protótipo do português médio, quero dizer: aquele que sempre pagou os seus impostos com um sorriso nos lábios e uma lágrima ao canto do olho, continuo a apaixonar-me por este povo de bons poetas e maus gestores e cujo maior receio é, como ao Astérix,  que o céu me caia em cima da cabeça.

Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Dezembro de 2002

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