A tarde de Sábado apanhou os meteorologistas distraídos e brindou-nos com um solzinho maciinho que aqueceu a alminha da gente.
Bom, a tarde de Sábado também ficou mais bonita porque o meu clube ganhou. Claro, não há tarde, por mais carrancuda que seja, que resista quando o meu clube ganha: o sol explode em matizes multi-cores e até a chuva, quando se atreve, é apenas um dom maravilhoso da natureza, mesmo quando nos encharca até aos ossos.
Repito, Sábado o meu clube ganhou, a tarde enfeitou-se de sol e, quando é assim, tudo se ajusta: a minha cidade rejubila, apetece sorrir, beijar criancinhas e cumprimentar polícias.
Chegado aqui, convém esclarecer: nado e criado em Gaia, o Porto é a minha cidade de adopção. Quando falo da minha cidade é a ela que me refiro. Só me sinto citadino quando me embrenho no meu velho Porto.Quando tenho necessidade de me envolver com os que me cercam, quando pretendo acertar o passo pelo ritmo alucinante de uma verdadeira cidade, é no Porto que me atrevo, mesmo sabendo que já me pesa o pé.
O Homem é um animal gregário, pensa sozinho, mas age em grupo. Por vezes isola-se em paisagem solitária, e logo se diz que é o instinto do regresso às origens. Mas ninguém é feliz sozinho. Isto e disto se apercebeu o Humano desde os primórdios. E daí a criação de grandes comunidades funcionando como reserva e conservação da espécie. De forma esbatida e até inconsciente é isso uma cidade.
Claro que, para mim, cidade boa mesmo é onde estão os cinemas, os cafés, as montras, os livros, as igrejas, os jardins, os automóveis...e montes e montes de gente. E o tempo que é preciso, meu rico santo, o tempo que se gasta a saborear a cidade. Cá por mim, que sou aldeão por vocação e feitio, fico tempos esquecidos, de boca aberta, a observar o bulício mágico da minha cidade. E depois, meu riquinho santinho, em que outro sítio, em que outra galáxia, se podem ver tantas mulheres bonitas pisando as ruas como quem dança?
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Abril 2003
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