quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A filha mais nova

   Quem escreve expõe-se. Poder-se-à dizer até que quem escreve, despe-se um pouco. Por mais que um autor se deixe envolver na ficção pura e dura, acaba sempre por exorcizar as suas próprias angústias. A escrita funciona como a extensão do divã onde o subconsciente se deita e debita as suas fantasias.
   Cada trabalho escrito é uma parcela da personalidade daquele que escreve e que passou a ser pertença do público. Público, esse, quase sempre implacável no seu julgamento.
   Uma das coisas que liga a escrita àqueles que escrevem é a sua profissão. Médicos e jornalistas estão ligados a grandes obras literárias. Fazendo-nos crer que, o contacto com o sofrimento alheio, refina a sensibilidade.
   Cá por mim, que sempre tratei da saúde dos telefones (e afins) avariados, nunca me confrontei com problemas (questões, como agora de diz) tão transcendentes. Mesmo assim, o meu relacionamento com os utentes desse serviço, fez-me rico de experiências inesquecíveis. No contacto diário com pequenos dramas, também eu cresci e me fiz.
   Claro que também me aconteceram episódios rocambolescos e até burlescos como, daquela vez em que, ao atravessar o jardim de uma moradia à beira-mar plantada, um cão, com cara de quem não faz mal a uma mosca, deixou-me virar as costas e saltou-me às ditas cujas, com um ímpeto selvagem tão refinado que me deixou o blusão e a camisa num mísero estado. Além do susto, foi a prova provada de que "quem vê caras...". Sempre tive muito cuidado com cães-de-guarda de porte imponente, dado que, esses excessos de zelo, já têm resultado em tragédias lamentáveis. Mas, no meu caso, nunca pensei que um simples vira-latas me faltasse tanto ao respeito.
   Mas, como ia dizendo, dos pequenos dramas suficientes para me deixarem com um nó na garganta e um brilhozinho nos olhos, recordarei apenas o caso  daquele velhinho que, de vóz trémula, apontando o telefone, me dizia: "O senhor, por favor, verifique bem o meu telefone, de certeza que as campaínhas estão avariadas porque ele não toca. A minha filha mais nova está na Suíça a trabalhar. Ontem, eu fiz anos. Ela não ia deixar de me telefonar no dia dos meus anos. Não, ela não se ia esquecer..."
   De imediato, desejei que as campaínhas do telefone estivessem mudas e quedas, desengonçadas e até partidas. Esperança vã: logo no primeiro teste, as campaínhas tocaram na mais completa e indiferente normalidade...enquanto dentro de mim crescia uma raiva surda por tudo o que é suiço: os relógios de cuco, os chocolates, a neutralidade...e, sobretudo, um grito estrangulado na garganta que refilava contra as filhas mais novas que se esquecem do aniversário dos pais.

Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Janeiro de 2003
 
 

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