quarta-feira, 30 de setembro de 2015

De passagem

Todos somos de passagem.
Peregrinos em viagem sem retorno,
Sopro de vento, rasgo de sol,
Fortuna, beijo, figos e mel,
Música e dor...

Eternidade?!...
Suplício de Tântalo
à beira tédio plantado!

Raul Leite, Dezembro de 2014

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Máquina do tempo

Se me fosse dado domar o tempo,
Ousaria criar mais um "dia de semana"
Talvez aquele que deveria existir
entre o sonso Domingo e a cruel Segunda-F.

Chamar-lhe-ia "dia de coisa nenhuma"...
Acção de bloqueio total do cérebro,
Livre do exercício penoso de pensar.

Rigor de meditação num deserto...de nada!
Em terras de coisíssima nenhuma,
Mas bem perto da miragem a que chamam
FELICIDADE.

(sono profundo no farto colo da inércia)

Raul Leite, Março de 2015


Anda comigo

A minha janela...
Fica na rota dos aviões, dos pássaros
e do mar bravo de teu sorriso.
Daí resulta...
Um ruído agradável, quase música.

A minha janela...
Ora é moldura de pintura figurativa,
Ora é quadro de variegadas cores.
Efeito...
Doce voz que embala a minha existência.

A minha janela...
Fica na rota dos vagabundos, dos loucos
e dos poetas ensimesmados.
Consequência...
Casamento perfeito entre a utopia e a razão.

Raul Leite, Abril de 2014

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Luar do Norte

Mal o luar fecha a cortina da noite,
Logo a manhã em requebros sensuais,
Seduz estrelas que, submissas, se apagam
em desatinos voluptuosos se afagam.

Enquanto o mar, em meneios de galã,
Na descorada melancolia da manhã,
Faz as delícias de corpos sãos e febris
Jogo erótico de refinados ardis...

Ao som dolente de ilustre melodia,
Adormeço nos braços do desconforto.
Logo as gaivotas, em perfeita disfonia,
Chamam à vida o cidadão absorto.

(mar de Setembro, soturno...
celebrando o fim do Verão)

Raul Leite, Setembro de 2015

Sorriso "Silly season"

Fácil...
É sabermos quando estamos apaixonados:

O trânsito na cidade flui suavemente,
O custo de vida, adormece nos braços da inércia,
A Primavera renasce dos escombros da memória,
Há passarinhos em recitais de música celestial,
Romarias em "Verão de nosso descontentamento",
Jornada gloriosa pelos caminhos da ternura...

Difícil...
É apagar o sorriso tonto estampado em nosso rosto.

(em desespeo, a Arte pode ser dispensável...
o AMOR, nunca!)

Raul Leite, Agosto de 2015

Ser ou não ser


Ser nada...
Atracção maior
até de quem nasceu para ser tudo.

Esforço inglório...
A todos é concedida uma missão.

Descobrir a que nos cabe em sorte,
é a busca que nos leva o tempo de uma vida.

Não esperes o fácil...
Convém usar o difícil para suavizar o básico.

Neste Ser, Pensar, Respirar...
O sucesso é o corolário de vários erros de percurso.

Redução de efeitos secundários:
Sê tu, ama e ri...a tua impressão digital
é pessoal e intransmissível.

Raul Leite, Agosto de 2015

Ontem (é a soma de todos os tempos)

Ontem, sonhei que sonhava...
Seja:
Sonhei que sonhava com algo
Em que eu próprio comandava a trama.
Estranha viagem onírica, sabermos
que estamos a sonhar...sonhando.

Não!...
Não se trata de desconstruir
as velhas teorias de Freud...

A sensação diáfana que nos invade
-quando sonhamos...que sonhamos-
É talvez,
a realidade que mais se aproxima
do acto de viver.

(a concretização plena do que
só existe no território dos sonhos)

Raul Leite, Agosto de 2015

Unidades de grandeza

A grandeza de nossos actos é medida...
Pelo tamanho de nossa presunção:
"o diabo são os outros".

Há sempre um rasto
de humanidade naquilo que fazes...
Daí o direito ao erro:
O direito a seres vítima de teus próprios actos.

E nisso te cumpres
E nisso te glorificas.
Porque ousaste,
Porque foste audaz,
Galhardo...

Ou então, tão só e apenas, HUMANO!

Raul Leite, Agosto de 2015

Magia menor

Sorte a nossa, olharmos a lua
como se fora obra do acaso...
Longe da veneração que nos merece
o estranho e o insólito.

Todos somos obra do acaso...

Excepto...
Adão que, por acaso, é filho
de um par de ideias geniais:
Tentação e Pecado.
(temperos maiores no repasto
que dá mais vida à vida)

Todavia,
Numa falsa noção de progresso,
Continuamos a sonhar
que podemos fazer milagres.
Trabalho exaustivo e insano
Que convém delegar nos outros.

Magia menor
Para quem nasceu mágico.

Raul Leite, Setembro de 2015

domingo, 27 de setembro de 2015

Praia deserta

Sou praia e sou deserta
-logo, infeliz-
Tu és apenas o Homem
Monumento à solidão.

Não cumpres sequer o destino,
Não cumpres sequer a lágrima.
Sequer com donaires de cisne.

(produto inacabado,
falha insanável na linha de produção)

Raul Leite, Março de 2015

Quero dizer...

De manhã subi ao monte,
À noite viajei sozinho
Nos braços de inocente lágrima.

Todos os muros são do tamanho
dos nossos medos...

O acto de estar feliz
Resplandece...
No aconchego de teu abraço.

Raul Leite, 2015

Dias Minguados

Se me fosse dado domar o tempo...
Ousaria criar mais um "dia de semana"
Talvez aquele que deveria existir
Entre o sonso Domingo e a cruel Segunda-F.

Chamar-lhe-ia "dia de coisa nenhuma"
Acção de bloqueio do cérebro,
Livre do exercício penoso de pensar.

Rigor de meditação...num deserto de nada!
Em terra de coisíssima nenhuma,
Mas bem perto da miragem a que chamam
FELICIDADE:

(sono profundo no farto colo da indolência)

Raul Leite, Agosto de 2015


 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Preâmbulo

Fala mais baixo...

Falar de tudo e de nada...
Eu falo do que sei: de NADA!

(que é como quem diz:
de coisas que realmente importam!)

Raul Leite, Junho de 2015

"O mito de Sísifo"

Empurrar a solidão até ao pico do monte,
Assistir à sua queda devido ao peso excessivo,
Voltar a empurrá-la montanha acima,
Para voltar e vê-la cair de novo.
-fora essa a condenação dos deuses-
Sempre numa cadência repetitiva, absurda e inútil.
Caricatura de trabalho alienante e de esperança perdida.
Demanda filosófica: encontrar "o sentido da vida".

Premissa muito próxima da conclusão:

O presente não existe; o futuro é amanhã...
Só o passado...e a morte têm vidas próprias.

("o sentido da vida" -a confiar numa velha bruxa-
mora muito para além da linha do horizonte)

Raul Leite, Setembro de 2015



E não se podem reciclar?...

Não raro, dou comigo com vontade
de seguir o caminho das estrelas
e ser capaz de sequestrar aquela
que emana luz de variegadas cores,
guardá-la em minha caixinha dos segredos.
E, na altura certa, em dádiva celeste,
Trocá-la pelo velho e vetusto sol.

Sol,
Nossa estrela que já periclita com o peso da idade.
Brinca, a seu bel-prazer, com as estações do ano.
E, em suaves devaneios, pinta o Verão
com as cores do Inverno (e vice-versa)
Enquanto, Primavera e Outono, se extinguem
nos braços inclementes das estações rainhas,,,
Verão e Inverno.

E não se podem reciclar?

(foi uma Primavera que te trouxe até mim,
foi num Outono que celebrámos e nos demos)

Raul Leite, Setembro de 2015