quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Vias sinuosas

"Nós éramos tão pobres que o arco-íris quando passava na nossa rua...era a preto e branco".
A pobreza tem servido de mote a muitos exercícios literários, cinematográficos a artes afins. Ser pobre nem sempre é sinónimo de indigente ou falhado. Ligo muito o estatuto de pobre ao operário, trabalhador por conta de outrem. São estes que constituem a maior parte da população activa; é a maioria destes que vive no dealbar da pobreza. São estes que não fogem aos impostos. E são estes os tais -como dizia Almeida Garret- necessários para produzirem ricos.
Entretanto, "os fazedores de opinião" que proliferam na imprensa, e que ultimamente nos arrasam com a reprimenda: "É a Economia, seus burros!" Dir-nos-ão que é preciso defender a flexibilidade, a precariedade e tudo o mais que o novo Código de Trabalho consagra. Dir-nos-ão ainda que é preciso modernizar em nome dos mercados e que a competitividade só se consegue com leis de trabalho mais elásticas.
Julgo saber que a maioria dos profissionais da imprensa gostaria de menos precariedade, flexibilidade, etc. Julgo saber que muitos jornalistas e pessoal gráfico fizeram grandes carreiras, em grandes jornais, e hoje são cidadãos de grande valia e prestígio. Julgo ainda saber que, ao longo de dezenas de anos, os gráficos e jornalistas foram sempre a vanguarda dos direitos e garantias de quem trabalha.
O problema estará naqueles que ganharam o estatuto de "prima-donas" do jornalismo e que passaram a vociferar, alto e bom som, em desfavor dos direitos conseguidos pelos trabalhadores e nos dizem: -"Vocês tem respostas antigas para perguntas novas". É só isso que nos dizem; é só isso que escrevem com toda a pertinácia, como se fossem portadores de nova mensagem evangélica. Fazem-no, porque conquistaram a auréola de polémicos à custa de escreverem o contrário daquilo que pensam e fazerem o invés daquilo que sugerem. São o terror dos políticos, de artistas e de figuras ditas públicas. São os novos Senadores da Nação usufruindo de um cargo para o qual não foram eleitos.

Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Fevereiro de 2003

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