...ainda por cima somos obrigados a reconhecer que a cadência diária do calendário, não se compadece com esta chaga ansiosa que nos consome em lume brando. E que o tempo, esse, esvai-se por entre os dedos enquanto nos enreda em tarefas pouco edificantes e nos reserva poucos minutos para sermos importantes...a nossos olhos, claro!
Valha-nos saber que até os grandes sábios, os grandes artistas, os homens de negócios e da política, perdem, eles também, imenso tempo em tarefas tão comezinhas como: apertar os cordões dos sapatos, arranjar o nó da gravata (eles), ir ao cabeleireiro e arranjar as unhas (elas), ver-se ao espelho e fazer caretas (eles), ver-se ao espelho e perguntar: "espelho meu há neste reino mais bela do que eu? (elas), dar pontapés nos pneus do carro (eles, elas nunca o fariam porque amam verdadeiramente o seu carro). olhar as montras e bocejar (eles), olhar as montras como quem olha para uma tela de Botticeli (elas), coçar o nariz (eles), retocar o baton (elas), esperar nas filas das repartições públicas, das cantinas e dos supermercados (eles e elas), nas salas de espera dos consultórios médicos e clínicas (eles e elas), cair num engarrafamento matinal (eles e elas), cair na tentação de casar (mais elas do que eles), olhar o horizonte de ar vago e indefinido (eles e elas), pensar (elas), agir e depois pensar (eles), comer e dormir (eles e elas), e, sobretudo, o tempo imenso que todos (eles e elas) são obrigados a perder no tal "lugar solitário onde toda a vaidade se apaga...".
Tudo isto é prosaico e vulgar. E perde-se assim 80% da nossa vida.
É claro que, livres desta maçada, estão os heróis. Ninguém espera ver um Super-homem, um Batman, uma Lara Croft (Tomb Raider) ou "cowbóys" de figura imaculada como Texas Kid, Buck Jones ou Tom Mix a perderem tempo com ninharias domésticas...e ainda bem! Aos heróis e aos deuses nada se questiona e tudo se desculpa.
Medo (pânico, mesmo) tenho eu dos "cowbóys" modernos que, montados numa parafernália de material bélico, são capazes de desencadear uma guerra para gáudio do seu próprio umbigo (e do "ouro negro") e onde os "índios" são considerados "o elo mais fraco".
Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Fevereiro de 2003
Sem comentários:
Enviar um comentário