quinta-feira, 28 de novembro de 2013

À sombra de um rumoroso ribeiro

Correndo o risco de ser repetitivo, volto ao tema da divisão etária da vida de uma pessoa:
   Percebe-se que não aceito de ânimo leve que o espaço de vida que vai dos 25 aos 55 anos não seja credor da máxima atenção dos gestores da vida pública. Ao contrário do que se diz, é nesse espaço de tempo que tudo se define: a estabilização da vida sentimental, a profissão, os afectos políticos e desportivos, a depuração do carácter...Em suma, para o bem e para o mal, cumpre-se o Homem!
   São trinta anos de vida. É o chamado tempo de jogo! Antes disso, somos crianças e jovens. Quer dizer: vamos aos treinos! Por volta dos 25 entramos em campo para o desafio de nossas vidas. Depois dos 55 anos, somos excelentes espectadores de um espectáculo que seguimos completamente extasiados. O ritmo abranda: passamos de um filme de "artes marciais" para o cinema de Manuel de Oliveira. E isso é bom! "É sorver em delicados haustos/preciosos néctares/com requintes de velhos mestres" (escrevi isto, não sei onde). É um acordar e agradecer a dádiva de mais um dia. É o tempo de "filosofar com pachorra e facúndia" (Eça). É o ripanço à sombra de um rumoroso ribeiro. Ora, se é tudo isto, porquê o estigma: 3ª idade?
   Deixem-se de conversa fiada! Não se distraiam e prestem especial atenção aos jogadores. Os verdadeiros atletas são os da faixa etária 25/55 anos. Eles são os verdadeiros reis do espectáculo. Durante trinta anos vão dar tudo, não por qualquer estúpido amor à camisola, mas porque sabem que estão em completo estado de busca do sentido da vida. E por isso lutam. E por isso jogam. Mesmo sabendo que, no final, uns cantarão victória, outros ficarão o resto de suas vidas a lamber as feridas. É a vida!
   Mas então, e a juventude? Não é na juventude que reside a aposta no futuro?
   Meus amigos, chavões à parte, os jovens funcionam num comprimento de onda muito próximo de quem ainda não descobriu que a vida eterna é coisa que não existe. E isso não é mau: quando o ritmo abrandar...
   É também por isso que defendo que o futuro da juventude será sempre o reflexo dos anónimos cidadãos da faixa 25/55 anos. É lá que estão as verdadeiras referências que hão-de inspirar o destino dos jovens. É lá que estão os pais, os professores, os artistas...e até os maus exemplos, claro!

Raul Leite, "O Primeiro de Janeiro", Julho de 2003

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