quinta-feira, 3 de abril de 2014

De pequenino...

     Os dez anos de idade ainda mal me conheciam, quando comecei a calcorrear a distância que separa a minha Gulpilhares, onde nasci, do Porto. Nessa altura, os transportes não estavam ao alcance de todos os bolsos e, andar a pé,  era recomendado aos pobres como excelente terapia. Cumpre dizer, que não fiz nada que meus pais e meus irmãos não tivessem já feito. Ou seja: era no Porto que se encontrava trabalho na construção civil, e foi no Porto -Mercado do Bolhão, uma vida inteira a vender flores - que minha mãe encontrou o maior suporte de sustento da numerosa prole de que faço parte.
     Nesses tempos, anos cinquenta, falar de trabalho infantil era um preciosismo que não fazia parte das preocupações dos portugueses. Vergonhoso era -ou pelo menos faziam-nos crer - ter onze, doze anos, um corpo saudável e não trabalhar.
     O facto de ter começado a trabalhar tão cedo, não me atribui maior autoridade na matéria, mas permite-me falar do assunto sem cair na tentação de grandes tiradas demagógicas. Permite-me, tão só, dizer que a violência exercida sobre esse exército de crianças que davam serventia a adultos incultos e mal formados, era coisa que não tem comparação com os métodos agora usados. Mas, ninguém se iluda, nas escolas o ambiente era de tal rigidez que chego a duvidar qual mais violento: se dar serventia a pedreiro ou desbravar o saber dos livros.
     Não está nos meus planos arvorar-me em mártir ou exibir eventuais traumas causados pelo trabalho precoce. Longe disso! A verdade é que, já como adulto, e depois de ter cumprido o serviço militar em Moçambique (na tal guerra do Ultramar que se transformou em assunto tabu), tive a sorte de conseguir emprego numa empresa (PT) onde as relações de trabalho e a gestão de conflitos foram sempre pautadas por atitudes de grande dignidade entre trabalhadores e a entidade patronal.
     Convenhamos: pode parecer de somenos, mas para mim...foi TUDO!
     
Primeiro de Janeiro, Fev. de 2003, Raul Leite

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